sexta-feira, 25 de setembro de 2026
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O que acontece com o pastor depois do púlpito?

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Há muito tempo carrego uma inquietação que, confesso, nunca consegui afastar completamente. Ela nasceu do contato com uma realidade que conheço não apenas pelos livros ou pelas estatísticas, mas por aquilo que tenho visto ao longo de muitos anos assessorando contabilmente igrejas de diferentes tamanhos, regiões e realidades econômicas. É uma pergunta simples, mas incômoda: o que acontece com o pastor depois que ele envelhece? Estamos acostumados a pensar no pastor enquanto ele está no exercício do ministério. Pensamos no homem do púlpito, no pregador, no conselheiro, no visitador, naquele que está disponível quando alguém adoece, quando uma família enfrenta uma crise, quando alguém morre, quando um casamento está em dificuldade ou quando simplesmente alguém precisa conversar. Mas existe um momento em que o pastor também envelhece. As forças diminuem, a saúde passa a exigir mais atenção, a capacidade de trabalhar já não é a mesma e, infelizmente, é justamente nessa fase que muitos descobrem que o futuro não foi devidamente planejado.

Primeiro, é preciso desfazer uma ilusão. Ninguém deve tomar como referência os casos excepcionais de pastores que alcançaram grande prosperidade financeira no exercício do ministério e imaginar que essa é a realidade da maioria dos ministros evangélicos. A realidade da maioria é muito diferente. Atender ao chamado de Deus nem sempre significa viver um mar de rosas. Para muitos pastores, significa servir em igrejas pequenas, em comunidades pobres, em regiões periféricas, com recursos limitados e enormes necessidades. Não é raro que o pastor precise exercer uma atividade profissional paralela para complementar sua renda. Na linguagem paulina, precisa “fazer tendas”. E não vejo nisso qualquer demérito. Paulo trabalhou com as próprias mãos, e o trabalho não anulou seu chamado nem diminuiu sua autoridade apostólica. Em determinadas circunstâncias, exercer outra atividade pode ser uma maneira responsável de sustentar a família e continuar servindo à igreja. Afinal, a família do pastor também precisa viver: alimentação, moradia, vestuário, educação, saúde, transporte, descanso e lazer são necessidades humanas, e o chamado ministerial não elimina nenhuma delas.

O problema é que, quando a renda é pequena, normalmente sobra pouco — ou nada — para pensar no futuro. E o futuro chega. Se a situação financeira do pastor já não é fácil enquanto está na ativa, podemos imaginar o que acontece quando chegam a idade e as limitações próprias da velhice. Depois de décadas visitando enfermos, celebrando casamentos, realizando funerais, aconselhando famílias, pregando, ensinando, evangelizando, administrando conflitos e cuidando de pessoas, o pastor também precisa ser cuidado. É inevitável. Entretanto, nem sempre existe uma estrutura financeira preparada para essa etapa da vida. Alguns chegam à velhice dependendo quase exclusivamente dos benefícios previdenciários; outros continuam trabalhando mesmo quando já não possuem as mesmas condições físicas; outros passam a depender de familiares, amigos ou irmãos de fé. E há situações ainda mais dolorosas: pastores que chegam ao fim da vida enfrentando dificuldades para comprar medicamentos, pagar despesas básicas ou manter uma moradia digna. Depois de tantos anos cuidando de pessoas, acabam precisando ser cuidados.

É importante, entretanto, tratar essa questão com equilíbrio. O ministro de confissão religiosa possui uma situação jurídica própria e não deve ser confundido automaticamente com um empregado submetido ao regime comum da legislação trabalhista. Por isso, não se pode simplesmente transportar para a relação entre igreja e ministro todos os direitos típicos de um contrato de emprego, como férias, gratificação natalina e FGTS. Isso, porém, não significa que a igreja e o pastor não devam pensar no futuro. A Previdência Social estabelece tratamento próprio para o ministro de confissão religiosa, que se enquadra como contribuinte individual, havendo regras específicas para sua contribuição previdenciária. O problema surge quando chegamos à realidade econômica: como contribuir adequadamente para a Previdência quando mal existe dinheiro para as necessidades presentes? Uma pequena igreja recebe dízimos e ofertas e precisa pagar suas despesas, manter o templo, desenvolver suas atividades ministeriais, cuidar da ação social, contribuir com missões e enfrentar uma infinidade de outras necessidades. Muitas vezes, a própria prebenda pastoral já representa um esforço considerável para aquela comunidade. Não podemos ignorar essa realidade. Há igrejas que gostariam de oferecer muito mais ao seu pastor, mas simplesmente não possuem recursos para isso.

Por essa razão, não me parece justo transformar essa discussão em uma procura por culpados. Às vezes, ninguém é culpado; existe apenas uma realidade econômica difícil. O pastor precisa viver, mas a igreja também possui limites. Suas fontes de recursos dependem, em grande medida, dos dízimos e das ofertas entregues pelos seus membros, e não há garantia de que as receitas serão suficientes para todas as necessidades. O grande problema é que, enquanto igreja e pastor lutam para resolver o presente, o futuro vai sendo deixado para depois. A contribuição previdenciária pode ser adiada; a formação de uma reserva pode ser adiada; o planejamento financeiro pode ser adiado. Mas o tempo não para. E aquilo que parecia uma pequena preocupação durante a vida ativa pode transformar-se, na velhice, em uma grande angústia.

Talvez seja necessário, portanto, começar a pensar em alternativas. Uma delas pode ser a bivocacionalidade, especialmente em contextos nos quais a igreja não possui condições de assegurar uma renda suficiente para o ministro e sua família. O exercício de uma atividade profissional paralela não deveria ser visto necessariamente como fracasso ministerial. Pode ser uma estratégia legítima de sustentabilidade pessoal e familiar, assim como foi, em outro contexto, o trabalho de Paulo como fabricante de tendas. Outra possibilidade está no planejamento previdenciário e na formação de reservas financeiras, inclusive por meio de previdência complementar, quando isso for adequado e possível. Pequenas contribuições realizadas durante muitos anos podem produzir resultados muito diferentes daqueles obtidos quando alguém tenta resolver o problema já próximo da aposentadoria. Talvez também seja necessário que seminários e instituições de formação teológica incluam em sua formação temas relacionados à educação financeira, planejamento previdenciário e administração da vida pessoal. Planejar a velhice não é falta de fé; pode ser uma expressão de prudência e responsabilidade.

E as igrejas também precisam participar dessa conversa. Não necessariamente assumindo obrigações que não têm condições de suportar, mas criando uma cultura de planejamento e cuidado. Quando uma igreja chama um pastor, deveria pensar não apenas na necessidade de hoje, mas também na realidade de amanhã. Não se trata de transformar o ministério pastoral em uma atividade voltada para vantagens financeiras, nem de estabelecer privilégios. Trata-se de reconhecer que o pastor é um ser humano e que dignidade também faz parte do cuidado cristão. Uma igreja pode não ter condições de manter uma grande estrutura previdenciária para seu pastor, mas talvez possa ajudá-lo a planejar, estimular a formação de uma reserva, contribuir dentro de suas possibilidades ou criar mecanismos de apoio para momentos de enfermidade e velhice. O importante é não esperar que a necessidade se transforme em tragédia para então procurar uma solução.

Minha preocupação com esse assunto não nasceu de uma teoria. Ela vem da experiência. Depois de tantos anos assessorando contabilmente igrejas nos mais diversos lugares, confesso que algumas situações que presenciei me causaram — e ainda me causam — profundo constrangimento. Há situações que, quando relatadas a alguém que não conhece a realidade das pequenas igrejas, parecem até inacreditáveis: pastores que deram a vida pelo ministério e chegaram à velhice em situação de extrema dificuldade; homens que passaram décadas cuidando de suas comunidades e que, no final da caminhada, precisam contar moedas para comprar medicamentos; ministros que continuam trabalhando não porque ainda tenham as mesmas forças, mas porque simplesmente não podem parar. E isso me faz pensar: será que esse é o destino que queremos para aqueles que dedicaram a vida ao serviço do Senhor? Não quero transformar essa pergunta em uma acusação contra as igrejas. Quero transformá-la em uma convocação à reflexão. Aquele pastor jovem e cheio de energia, que hoje percorre quilômetros para visitar uma família, que prega várias vezes por semana, que aconselha pessoas e está disponível a qualquer hora, um dia envelhecerá. O pastor de hoje será o pastor aposentado de amanhã.

Talvez não exista uma resposta única para esse problema. A solução poderá passar pela Previdência Social, pela previdência complementar, pela bivocacionalidade, por fundos de apoio, por iniciativas denominacionais, por planejamento financeiro pessoal ou por uma combinação dessas alternativas. Cada realidade precisará encontrar seu próprio caminho. Mas uma coisa aprendi nesses anos de convivência com as igrejas: não podemos continuar fingindo que esse problema não existe. Precisamos conversar sobre ele enquanto o pastor ainda está na ativa; precisamos falar sobre isso nos seminários; precisamos orientar os jovens que estão ingressando no ministério; precisamos ajudar os pastores que já estão chegando à maturidade; e precisamos olhar para aqueles que já envelheceram com respeito, gratidão e, sobretudo, cuidado. Porque existe uma verdade que não podemos esquecer: o pastor que hoje cuida da igreja será, amanhã, o pastor que precisará ser cuidado. Depois de tantos anos testemunhando realidades que muitas vezes preferimos não enxergar, esta continua sendo uma das minhas maiores inquietações. Não sei qual será a solução definitiva, nem se encontraremos uma fórmula capaz de resolver o problema para todos. Mas sei que precisamos começar. E talvez o primeiro passo seja simplesmente ter coragem de perguntar: Até quando? Eu não sei. Mas espero que não esperemos até que seja tarde demais.

Jonatas Nascimento, diácono. Membro da Primeira Igreja Batista em Maricá-RJ. Profissional contábil, palestrante e autor da obra Cartilha da Igreja Legal.

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