A atuação dos cristãos nas eleições influencia o futuro político e social da nação.

Vivemos um dos momentos mais dramáticos e incertos da história recente do Brasil. Ao olharmos para o cenário nacional, a sensação de perplexidade é inevitável. A sociedade brasileira encontra-se imersa em uma crise sistêmica que ultrapassa os limites da economia e alcança as estruturas morais, políticas e institucionais do país. O ambiente público, que deveria ser um espaço de promoção da justiça, do bem comum e da governabilidade, transformou-se em um terreno de incerteza, corrupção generalizada e erosão das liberdades fundamentais.
Diante desse quadro caótico, o cristão é desafiado a abandonar a apatia, a conformação e a “espiral do silêncio”, compreendendo que sua fé possui implicações diretas sobre sua responsabilidade civil e o futuro da nação, como pertencente à nova humanidade cujo papel é descrito por Paulo “[…] sejam irrepreensíveis e puros, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, na qual vocês brilham como luzeiros no mundo, preservando a palavra da vida” (Fp 2.15,16).
A degradação da vida pública manifesta-se no desgaste das próprias instituições que deveriam zelar pela ordem constitucional, que é observável pela ineficiência crônica nos diversos setores públicos, cujas lideranças frequentemente surgem envolvidas em escândalos de corrupção e promiscuidade com elevados interesses financeiros. A cada dia que passa, os meios massivos de comunicação, estampam denúncias sobre o envolvimento de autoridades em diversos âmbitos de atuação, em teias de influência especialmente com figuras do sistema financeiro, destroem a confiança popular e a imparcialidade da justiça. Quando setores que deveriam ser o exemplo de improbidade o deixam de ser, perde-se a necessária credibilidade e o Estado de Direito é colocado em xeque, abrindo margem para o autoritarismo, a censura e o cerceamento da liberdade de expressão.
Paralelamente ao colapso ético, a sociedade foi tragada por uma divisão ideológica de espírito belicoso. A polarização transformou o debate público em um campo de guerra onde o diálogo foi substituído pelo cancelamento e pela hostilidade. Nesse ambiente, intensifica-se uma pressão sistemática contra a fé cristã, a família, os princípios morais e éticos fundamentais. Pautas que defendem a vida, a família e a liberdade religiosa são rotuladas de forma pejorativa e reduzidas intencionalmente a mera “pauta de costumes”, enquanto narrativas que desconstroem os valores bíblicos ganham respaldo institucional.
Diante disso, o período eleitoral exige profundo discernimento. Para o cristão, o voto não pode ser encarado como gesto burocrático ou paixão partidária cega. O seguidor de Cristo é chamado a atuar como sal e luz em todas as esferas da existência, o que inclui a participação pública consciente. O discernimento exige a rejeição da idolatria política — que busca “salvadores terrenos” nos discursos demagógicos — e a adoção de critérios fundamentados na verdade e na justiça. O cristão deve avaliar a conduta, o histórico e os compromissos dos candidatos, identificando aqueles que respeitam a liberdade, combatem a corrupção, defendem a dignidade humana, priorizando valores sadios para a construção do futuro da nação.
Nas urnas, o eleitor cristão deve priorizar balizas claras: a defesa intransigente da liberdade de consciência e de expressão; o compromisso com a honestidade e a transparência; o combate efetivo à corrupção e ao patrimonialismo; a valorização da educação que promova a construção saudável da vida desde as primeiras idades a partir de valores sólidos que priorizem a construção de sujeitos históricos dentro e partir do ambiente familiar; e a promoção de políticas que fortaleçam a família e a paz social. É urgente rejeitar candidatos que promovem a censura, usam o poder público para perseguir opositores ou relativizam o crime. Além disso, o cristão não deve se deixar contaminar pelo espírito de vingança, mas ser promotor da paz e do diálogo coerente, firmando-se na verdade com integridade e amor.
É oportuno lembrar do líder batista Martin Luther King Jr., que em sua “Carta da Prisão de Birmingham”, de 1963 afirmou: “A tragédia final não é a opressão e a crueldade dos maus, mas o silêncio sobre isso por parte das boas pessoas. No final, não nos lembraremos das palavras dos nossos inimigos, mas do silêncio dos nossos amigos.”
O futuro do Brasil não será construído pelo silêncio dos homens de bem, tampouco pela ingênua entrega das instituições a projetos de poder corruptos. A esperança última da igreja não reside em governos humanos, mas enquanto estivemos neste mundo, somos chamados a ser fiéis à nossa vocação de embaixadores do Reino de Deus na vida pública (2Co 5.20). O momento exige vigilância, oração e ação consciente nas urnas.
Que a igreja e cada um de nós, cristãos, estejamos atentos à realidade concreta que se estende para além de nosso espaço geográfico e dominical, considerando a vida também valorosa nos OUTROS SEIS DIAS e ergamos nossa voz com sabedoria e exercendo nosso papel cidadão para que a justiça, a verdade e a paz prevaleçam sobre a nossa nação.
Por Lorenço Stélio Rega – Extraído.










