quinta-feira, 29 de outubro de 2026
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Os outros seis dias – O chamado profético para uma Nova Reforma da Igreja

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No dia 31 de outubro, celebramos a coragem dos mobilizadores da Reforma Protestante, homens que não se calaram diante de uma estrutura religiosa distanciada de sua missão divina e alienada do mundo real. Hoje, cinco séculos depois, precisamos de uma nova Reforma.

Devemos indagar se a igreja evangélica brasileira tem se distanciado do seu papel desenhado por Deus. É possível notar a priorização de um movimento centrífugo como temos em Atos 1.8, mas nos parece que tem sido mais focado quase que estritamente na pregação verbal das Boas Novas. Mas isso tem tido como resultado a fragmentação e fragilização da vida cristã, pela segmentação entre o sagrado e o secular, onde temos a ênfase no ativismo dominical com reduzida priorização da vivência na esfera pública nos “outros seis dias” da semana.

A consequência dessa dicotomia é devastadora. A vida do cristão médio restringe-se às liturgias de domingo, mas nem sempre com a transposição das Boas Novas na concreteza da vida no tecido social, profissional e público.

Será que nós, como igreja, nos fechamos em uma visão entrópica e centrípeta, consumidos pelas próprias engrenagens operacionais e institucionais enquanto negligenciamos o nosso papel profético diante deste mundo cumprindo a oração de Jesus “rogo Pai não que os tires do mundo” (Jo 17.15).

O Brasil afunda em um cenário de elevada corrupção, insegurança institucional, imoralidade e censura, em que nós como igreja, ocupados demais conosco mesmos, podemos estar deixando de ser sal da terra e luz no meio de uma geração pervertida e corrompida (Fp 2.15,16). Estamos esquecemos nossa vocação de embaixadores de Cristo (2Co 5.20), chamados a sermos a vitrine e a tradução viva das Boas Novas, o que exige muito mais para unir o que temos no Novo Testamento na expressão “por palavras e por obras”.

Será que reduzimos Cristianismo em atividades, programas e eventos e, por estarmos nisso ocupados, não estamos conseguindo transpor intensamente as Boas Novas para a vida nos “outros seis dias” reassumindo nosso papel e estamos perdendo o direito de sermos ouvidos?

Como seria o nosso país hoje se tivéssemos conseguido viver as Boas Novas também nos “outros seis dias” e cumprido esse nosso papel profético? Cristãos do primeiro século nos deram o exemplo ao influenciar o mundo da época unindo tão bem palavras e obras a ponto de serem acusados de “transtornar o mundo” (At 17.6).

Para resgatar sua vocação, a igreja precisa reconciliar o ministério da pregação (“kerygma”, a palavra proclamada) com o ministério da presença (a palavra encarnada no cotidiano). A igreja não apenas anuncia uma mensagem, ela também é a mensagem em movimento. Inserida no mundo, ela é chamada a corporificar as Boas Novas na vida pública de forma integral, numa dinâmica 24/7/365 – vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, o ano inteiro – como o cumprimento radical da ordem de Jesus para segui-lo “cada dia” (Lc 9.23).

 Em um mundo sem liderança segura e guiado apenas para o caos, precisamos de líderes corajosos que reorientem a igreja a viver os valores do Reino também na praça pública nos “outros seis dias”.

O desafio contemporâneo é urgente. A perseguição moderna contra a igreja já não se dá apenas pelo encarceramento físico, mas por uma guerra ideológica que ataca violentamente nossos valores éticos fundamentais. Se escolhermos o silêncio confortável dos nossos templos para evitar o embate cultural diário, quando finalmente acordarmos, não haverá mais chance de vivermos em paz e com honestidade.

A verdadeira Reforma que o Brasil aguarda não é um saudosismo histórico ou mesmo um ativismo paralisante, mas a coragem inabalável de encarnar a esperança e a ética de Cristo hoje, sabendo que a luz divina foi forjada para prevalecer e dissipar as trevas do nosso tempo.

Por Lourenço Stelio Rega – Doutor em Ciências da Religião (PUC-SP)

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