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Será que estamos esquecendo algum detalhe?

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Na comemoração da Páscoa, há igrejas que fazem um café da manhã bem cedo, desenvolvendo gostosa comunhão, e depois celebram a ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo. Nesse momento memorável para todos nós, sempre me vem à mente uma pergunta: “por que, durante o ano, pouco ouvimos mensagens e palestras sobre a ressurreição de Jesus?”

Já li em livros teológicos e ouvi em mensagens e conversas entre pastores e crentes que o centro da história humana é a cruz de Cristo. Aí a indagação se amplia ainda mais. Veja, não estou questionando a cruz. Ande comigo nas próximas linhas, para descobrirmos ainda mais sobre a preciosa obra de nosso Redentor e, ao final dessa nossa conversa, deixo para você avaliar que o centro da história é muito mais amplo e rico do que podemos pensar.

Vamos começar lembrando que a nossa compreensão cotidiana sobre o evangelho tem sido construída a partir da obtenção da salvação, de modo que esse tema tem se tornado o centro gravitacional de nossas doutrinas, da vida eclesiástica, de nossos relacionamentos pessoais, de nossa pregação, de nossos hinos. Em geral, a mensagem da cruz de Cristo vai se tornando o centro de tudo e da história humana. Aliás, a cruz tem até se tornado o símbolo cristão mais utilizado em diversas partes do mundo.

O tema é bem amplo, uma vez que a missão de Deus (missĭo Dei) é resgatar toda a criação, não apenas o ser humano, como tenho escrito em diversos artigos. Então, a obra redentora de Jesus é mais profunda, mais vasta, alcançando a redenção de toda criação que está decaída e trazendo de volta de volta tudo aos pés do criador (Ef 1). Mas, neste momento, vamos nos concentrar na redenção humana, do indivíduo.

Considerando o ensino paulino de que toda a vontade de Deus deve permear nossa mensagem e, por consequência, nossa compreensão do Evangelho (Atos 20.27), temos o convite ao aprofundamento do tema, a descobrir fatos históricos significativos para a nossa vida e para a nossa história.

Partindo também do ensino de Jesus quando teve de tratar do divórcio e remeteu a busca pela resposta no início de tudo (“… não foi assim no princípio …” Mateus 19.4 e 8), temos aqui importante pista hermenêutica, pois, ao fazer esse percurso de retorno à Criação, vamos chegar ao que podemos chamar de construto matricial da natureza humana e do próprio mundo. Em outras palavras, quando Deus criou tudo, quais foram os detalhes, especificações ou pormenorizações que ele desenhou no Plano da Criação, a partir do qual tudo deveria funcionar? Já que estamos falando de história, torna-se necessário começar do começo.

Ao criar o ser humano – homem e mulher – à sua imagem, Deus estabeleceu a sua finalidade – viver para sua glória considerando Deus como o Criador e originador de tudo (Isaias 43.7; Efésios 1.11 etc.). Em outro artigo, já aprofundei o significado do que seria viver para a glória de Deus, ao ligar essa compreensão com o ensino dos dois grandes mandamentos (Marcos 12.28ss; Mateus 22.37ss) e conectando de volta à criação. Assim, viver para a glória de Deus poderia ser entendido, em princípio, viver em harmonia e comunhão com Deus, comigo mesmo, com o próximo e com a criação. Com a queda, entramos em estado de rebeldia contra nosso Criador (Gênesis 3).

Após a queda, dentro de seu amor, esse mesmo Criador, ao exercer sua natureza amorosa, já prometera nossa recuperação, apresentando o que chamamos na Teologia de “protoevangelho” (Gênesis 3.15), que se concretizou com a encarnação de seu Filho Unigênito, sua morte na cruz, sua ressurreição, ascensão e, no futuro, com a sua volta.
Esse é o Evangelho completo, em que a cruz é um dos componentes, mas não o único ou mesmo o principal, pois todos são, ao mesmo tempo, principais, todos são prioridade. Sem um, qualquer outro não existiria. Aliás, o apóstolo Paulo até nos lembra, de forma enfática, que o Evangelho sem a ressureição é vão, inútil (1Coríntios 15.1ss).

Com o passar do tempo, acabamos nos concentrando na cruz, mas ela sozinha não completa o todo do Evangelho, pois todos estes cinco momentos da história são importantes, e o são juntos: encarnação | cruz | ressurreição | ascensão | volta. Tal é a perfeição da recuperação de toda criação e do ser humano providenciada por Deus.

A encarnação traz Deus transcendente, por meio de seu Filho, à posição imanente para viver entre nós. Na cruz, Ele morre por nós, pagando o preço de nossa condenação nos trazendo a justificação (dentro da figura semântica jurídica para explicar essa profunda ação em nosso favor), na ressurreição temos o desafio da nova vida que nos é apresentada após nossa conversão (Romanos 6.1ss), além de apontar para a esperança de um futuro seguro. A ascensão nos aponta também para a esperança de que tudo será, no final dos tempos, restaurado, quando nosso Mestre voltar em toda a sua glória, e essa volta marca a restauração de toda criação decaída.

O centro da história, portanto, não é um só, mas cinco eventos conectados e juntos que nos trazem de volta ao Plano da Criação, em que o Plano da Redenção é servo e meio e, sem o qual, continuaríamos perdidos em nosso estado de rebeldia contra nosso Criador.
Ser salvo, portanto, significa buscar a reconstrução da vida a partir do plano original de Deus na Criação, ter novidade de vida, ser nova criatura, viver em abundância (João 10.10), sendo sal e luz, transbordando o agradável perfume de Deus, como testemunhas vivas da restauração de Deus para toda criação (Atos 1.8), de modo que as pessoas, ao nosso redor, possam reconhecer a transformação de nossas vidas e serem atraídas para se renderem aos pés do Mestre, confessando seu estado de rebeldia e aceitando a obra mais do que suficiente dele em nos recuperar.

Quando consideramos essa visão mais profunda e ampla, teremos condições de levar em conta que nossa mensagem deverá ir além da transmissão verbal, avançando para a sua aplicação na remodelagem e na transformação de nosso modo de viver, de ver a vida, ver o mundo, ver os relacionamentos, nossa profissão, nossa vida doméstica, enfim, tudo será tocado pelo poder transformador do Evangelho nos trazendo de volta ao caminho que foi abandonado com a rebelião no Éden.

Por isso, quem está em Cristo é nova criação, as coisas antigas se passaram e tudo vai se tornando novo (2Co 5.18). “Tudo” aqui no texto significa exatamente isso, toda a vida passa a ser ressignificada pelos ideais do Evangelho e isso deve ser levado em conta como enorme desafio quando alguém aceita a Cristo, cujos valores necessitarão ser reconsiderados, redesenhados à luz do Evangelho, de modo a afetar suas decisões e escolhas diárias (Rm 12.1-3). Então a salvação é muito mais do que um tipo de “cartão magnético para entrar na Nova Jerusalém”, é mudança radical de vida que nos levara, como cristãos e como igreja, a ser a tradução de Deus para o mundo expressando vida transformada e transformadora.

Assim, na comemoração da Páscoa, não poderemos esquecer de nenhum evento que torna o Evangelho completo e rico, em que a visão mais profunda no aponta para compreender que o centro não é um só, mas todos esses eventos fantásticos, especiais, eternos e que se completam promovidos pelo nosso Criador e Redentor. Encarnação, cruz, ressurreição, ascensão e volta, que promovem a restauração de tudo e de nossas vidas, dando-nos o real sentido de viver.

Por Lourenço Stelio Rega  Extraído da Revista Comunhão.

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