
“Não presumas do dia de amanhã, porque não sabes o que o dia trará.” (Provérbios 27:1)
O humorista Jorge Gastaldi, ao comentar o acidente com um surfista catarinense atingido no coração por um peixe-espada na Costa Rica, no dia 21 de maio de 2026, contrastou o extremo preparo dos atletas com a total imprevisibilidade da vida. Ao enfatizar a fragilidade humana, ele fez uma afirmação cirúrgica: “A gente vive como se tivesse um estoque infinito de dias guardado em algum lugar.” De fato, a maioria de nós vive como se a morte fosse uma realidade distante, ignorando os sobressaltos e infortúnios, ou, como alguns dizem, as “peças que a vida prega na gente”.
Felizmente, o surfista Fabiano Duarte Costa se recupera bem. No entanto, a italiana Giuliana Manfrine, de 36 anos, não teve a mesma sorte ao ser atingida por um peixe da mesma espécie nas Ilhas Mentawai, em 2024, vindo a falecer. Histórias assim nos lembram que o imprevisível é o pano de fundo da nossa rotina. Uma queda boba na calçada, um acidente de trânsito na volta do trabalho, um assalto violento, um infarto fulminante no meio da noite… Quantas pessoas que conhecemos amanheceram cheias de planos e não viram o pôr do sol? Deixaram para trás projetos inacabados, sonhos desenhados no papel, cursos pela metade, casamentos planejados e carreiras que pareciam promissoras, tudo interrompido em um piscar de olhos.
Salomão nos advertiu: “Não presumas do dia de amanhã, porque não sabes o que o dia trará” (Pv 27:1). Na mesma linha, o apóstolo Tiago nos confronta com nossa própria pequenez ao escrever: “Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece” (Tg 4:14). Diante de palavras tão contundentes, cabe a pergunta: temos considerado essas advertências? A verdade nua e crua é que poucos se detêm para refletir sobre a brevidade da vida, e menos ainda são os que se preparam para o inevitável encontro com o Criador.
A constatação do humorista não é uma piada; a frase retrata exatamente o comportamento de nossa geração, revelando uma trágica realidade do comportamento humano. Vivemos, ainda que inconscientemente, como se tivéssemos um “estoque infinito de dias”, como se a vida na terra não tivesse que acabar. Desperdiçamos o tempo, adiamos reconciliações necessárias, invertemos nossas prioridades espirituais e focamos tanto no agora que perdemos completamente o senso de urgência. Queremos gerenciar nossa existência com a mesma soberba do homem insensato da parábola de Jesus, que guardava bens para o futuro sem saber que aquela era sua última oportunidade, a quem Deus declarou: “Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” (Lc 12:20).
Essa fragilidade ganha o nome e o rosto de pessoas comuns no nosso dia a dia. No dia 4 de fevereiro de 2026, Micaela Carolina Rodrigues de Sousa, de 23 anos, saiu de casa cheia de esperança para uma entrevista de emprego em Timon, no Maranhão. Passageira de uma moto por aplicativo, ela atravessava a Ponte Metálica, que liga Teresina (Piauí) a Timon, quando o acidente ocorreu: o pneu da moto prendeu no vão dos trilhos, fazendo com que o piloto perdesse o controle. Ambos caíram da ponte e, apesar de Micaela estar usando capacete, ela faleceu no local. Uma jovem cheia de expectativas para o futuro, cuja história foi interrompida em uma manhã comum de meio de semana.
Os imprevistos receberam esse nome justamente porque não constam de nossa agenda. A grande questão que precisamos responder hoje é: estamos preparados para o momento em que eles baterem à nossa porta? A morte não escolhe idade; ela ceifa crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos. Ao contrário do que diz o ditado popular, ela não distribui senhas nem respeita filas. Não sabemos o dia, a hora, nem as circunstâncias em que seremos chamados a prestar contas ao justo Juiz. Diante disso, se o seu sopro de vida cessasse hoje, você estaria pronto?
A Bíblia é categórica ao afirmar que “cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus” (Rm 14:12) e que “aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo depois disso o juízo” (Hb 9:27). Quando esse dia chegar para você, qual será o seu destino definitivo? Você receberá a coroa da vida ou a sentença da condenação eterna? Entre o céu e o inferno, onde será a sua habitação na eternidade? Pense nisso com a urgência que a vida exige.
Não trate a sua eternidade como algo secundário. Reconcilie-se com Deus hoje, enquanto há oportunidade. Busque a Cristo sinceramente, arrependa-se dos seus pecados e viva de maneira consciente diante da eternidade. O amanhã não nos pertence, mas o hoje é uma oportunidade concedida pela graça de Deus — procrastinar o convite do evangelho hoje pode ser uma escolha pela morte.

Cleber Montes Moreira
Pastor da Igreja Batista de Vila Antunes, Cajati (SP)
Colunista do Portal













