
Em geral a cada domingo nos levantamos de manhã e nos preparamos para ir ao culto dizendo “vamos à igreja”. Assim, podemos inicialmente pensar que iremos a um local onde o culto ocorrerá que possui um CEP.
O Código de Endereçamento Postal (CEP) foi criado em 14 de maio de 1971 pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) para indicar a localização de endereços no país.
Essa compreensão de que iremos à igreja como um espaço físico localizado é algo que tem suas origens há muito tempo. Em primeiro lugar podemos relembrar do momento histórico que Deus orientou Moisés a escolher um lugar (Tabernáculo) para sua habitação durante a peregrinação no deserto (Dt 12.5). Depois isso se transfere ao Templo construído por Salomão (1Rs 8.12-13). No livro dos Salmos o Templo de Jerusalém é nomeado como a casa de Deus (23.6; 27.4; 122.1). E assim a história do Antigo Testamento foi sendo vivida.
Durante o Novo Testamento os judeus cristãos até buscaram permanecer no Templo de Jerusalém, mas logo o Cristianismo foi se espalhando pelo mundo, especialmente por meio de reuniões domésticas.
Ao se tornar religião oficial do Império Romano, a conexão dos cultos e atos religiosos em templos oficiais, dirigidos por uma liderança oficial – o clero – vai se instalando na história do Cristianismo e permanece até hoje. Neil Cole chama essa fase de Igreja 2.0.
No fundo, quando dizemos que vamos à igreja, tendemos centralizar nosso relacionamento com Deus e irmãos na fé em um lugar que chamamos de igreja e em um dia da semana. Nos outros seis dias esperamos que possamos ter de Deus a atenção, correndo o risco de separar o secular do sagrado, e entender que há um lado religioso e um lado profano em nossa vida.
Então, como compreender biblicamente o “ir à igreja” – um espaço geográfico – diante do fato de que Jesus Cristo morreu, não por edifícios, mobiliários, mas por nós – sua própria igreja (At 20.28; Ef 5.25-27)?
Vamos lembrar a conversa de Jesus com a mulher samaritana em que ela estava preocupada em descobrir qual era o LOCAL legítimo da adoração – Samaria ou Jerusalém – e Jesus realoca a pergunta dela migrando de um espaço geográfico para o interior de um coração sincero ao mencionar havia chegado a hora “em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade” (Jo 4.23). Estevão e Paulo nos ensinaram que Deus não habita em templos ou santuários feitos por mãos humanas (At 7.48; 17.24), Paulo ensinou que nosso corpo é o templo do Espírito Santo (1Co 3.16; 6.19; 2Co 6.16).
O que vemos nesse processo de deslocamento da compreensão sobre a adoração e habitação de Deus entre o Antigo e o Novo Testamentos faz parte do que chamamos nos estudos bíblicos de revelação progressiva, em que Deus vai se revelando à medida que o próprio ser humano pode, com suas limitações, compreender suas verdades eternas.
Assim, aprendemos que, nós somos a igreja pela qual Jesus morreu, não apenas quando estamos juntos em um espaço geográfico, mas também em todo o lugar onde vivermos. Nos outros seis dias somos também a igreja, espalhada (Jo 17.15ss) por onde estivermos atuando como embaixadores de Cristo (2Co 5.20), como cristãos em tempo integral a cada dia (Lc 9.23). Figurativamente podemos dizer que somos o CEP de Deus e que o mundo o conhecerá por meio do que somos (Jo 14.9)
Essa percepção que Jesus, Estevão e Paulo nos fornecem amplia o nosso papel e engajamento na vida cristã nos sete dias da semana.
Por Lourenço Stelio Rega – Teólogo, especialista em Bioética e Ética, e escritor – Extraído da Revista Comunhão.












