“Jesus respondeu: – Quem já se banhou não precisa lavar nada, a não ser os pés, pois, quanto ao mais, está todo limpo. E vocês estão limpos, mas não todos”. (João 13.10).
Os capítulos 13-17 do Evangelho de João formam um bloco temático cujo cenário é a última ceia. Com poucas ações, incluindo apenas a cena do lava-pés e a saída de Judas, o bloco é farto de discursos, com alguns diálogos e discursos que revelam a missão de Jesus e consequentemente a missão dos seus discípulos. O capítulo 13 traz uma expressão simbólica e muito importante para nós: “Jesus amou-os até o fim” (13,1). A demonstração do seu amor aos seus discípulos chegou ao ponto máximo com a sua morte sacrificial no Calvário. A expressão “até o fim”, pode ser traduzida como “até a plenitude”. Este significado fica evidente ao lembrarmos da exclamação final de Jesus na cruz: “Está consumado” (Jo 19.30). A última ceia, um momento de intimidade e despedida, é inaugurada na cena de Jesus lavando os pés de seus discípulos (13.1-17), oferecendo-os um exemplo para ser imitado em comunidade.
O gesto de Jesus é um ensinamento: a autoridade só pode ser entendida como função de serviço aos outros. Lavar os pés dos hóspedes era um hábito de hospitalidade. Os que prestavam esse serviço eram os filhos ou a esposa, numa demonstração de carinho, ou o próprio anfitrião num ato de dedicação. Na maior parte das vezes esta tarefa era designada a um escravo. O serviço trazia um sentido de humilhação, de modo que alguns rabinos proibiam que escravos judeus fossem obrigados a prestar esse serviço a seus patrões.
A transfiguração de Jesus revela sua glória divina, enquanto o lava-pés demonstra sua humildade radical. Ao assumir a forma de servo, lavando os pés de seus discípulos, Jesus nos convida a uma profunda transformação interior. Esse ato, além de ser um gesto de serviço, simboliza a purificação e a renovação espiritual, convidando-nos a seguir seus passos e a servir uns aos outros com amor e humildade.
O diálogo de Jesus e Pedro (13.6-10) tem uma dose acentuada de realismo: a reação impetuosa de Pedro diante do ato do Mestre e o não menos impetuoso desejo de não se afastar dele. O gesto de Jesus é uma condição inevitável para ter comunhão com ele (v.8b). Em seguida, após lavar os pés, Jesus se põe a discursar, explicando-lhes o valor exemplar do gesto, o sentido do serviço cristão. O que Jesus fez no contexto imediato foi lavar os pés.
Logo depois será o de dar a sua vida pelos outros. Ao lavar os pés de Pedro, Jesus demonstra um amor incondicional e um serviço radical.
Se o Mestre e Senhor lavou os seus pés, como discípulos eles deveriam lavar os pés uns dos outros: tornando-se servos através do amor e do serviço. A imitação de Jesus não é um fardo, mas uma resposta ao amor que Ele primeiro nos mostrou. A obrigação de servir nasce do dom da salvação. Ao se tornar servo, Jesus nos mostrou o caminho a seguir. A aceitação desse caminho implica em, não apenas receber passivamente a graça de Deus, mas em ativamente participar de sua missão, servindo aos outros com o mesmo amor sacrificial que Ele demonstrou. É fácil compreender, o difícil é realizar. O valor deste exemplo deve animar a caminhada do cristão, carregando consigo uma bem-aventurança de que é bem melhor servir do que ser servido.
Pr. Jonathas Lopes Pereira