
Vivemos em busca do que é certo tomando decisões o tempo todo. O fato de decidirmos o tempo todo sobre tudo o que temos de escolher na vida, seja no campo pessoal, relacional, profissional ou mesmo público, marca uma caraterística importante na natureza humana que demonstra o fato de que somos seres éticos e isto nos leva a mais um importante detalhe de nossa modelagem como seres humanos que indica que somos portadores de liberdade.
Fomos criados assim, seres livres, que para exercermos a nossa liberdade tomamos decisões. E mesmo que eu queira dizer que não estou tomando uma decisão, na realidade estou decidindo, pois uma não-decisão é também uma decisão – a de não decidir. O filósofo existencialista Jean Paul Sartre chegou a afirmar que “O homem está condenado a ser livre”. E um dos dilemas por ele discutido ao desenhar a sua concepção existencialista, foi exatamente em sincronizar a liberdade com a responsabilidade, o que se torna, de certo modo, um ponto de incômodo ao ser humano.
Liberdade associada à responsabilidade se torna uma equação fundamental que para mim separa a própria liberdade do que conhecemos como autonomia. Autonomia vem do grego “auto” (eu próprio) mais “nomia” (de “nomos”, norma, lei), em que nós próprios somos a fonte referencial para nossas decisões. Não dependemos de outros para que digam o que devemos ou podemos decidir e, nesse caso, cada um de nós, como indivíduos, somos nosso próprio legislador (estabelecendo as normas ou leis de referência) e nosso próprio juiz (ao validar por si mesmo nossas decisões e atos, sem precisar da opinião ou julgamento alheio).
Diferentemente a liberdade associada à responsabilidade leva em conta os efeitos de nossas decisões, seja em relação ao próximo, mas também nos papéis que exercemos em nossa história de vida.
Alguém poderia dizer que a autonomia pode ser associada à responsabilidade também, levando em conta o outro em relação às consequências de decisões autônomas tomadas. Mas aí a autonomia deixa de ser “auto” (eu próprio) e passa a ser heteronomia, do grego “hetero” (outro) mais “nomia” (norma, lei).
Veja que estou fazendo as definições a partir da exatidão dos termos que utilizamos, se não for assim, a imprecisão e incompreensão se tornam patentes. Ou somos exatos ou não, não é uma questão desejo pessoal. Ou é, ou não é. Me perdoem.
Um outro lado de tudo isso é que podemos concluir que todo ser humano é um ser ético – um ser que decide. Então dizer que alguém não é ético seria uma certa imprecisão. O ponto não é esse, mas quais os referenciais que a pessoa está seguindo para se basear em suas decisões. Por exemplo, se eu tomar uma decisão levando em conta as suas consequências, seguirei uma abordagem consequencialista, em termos técnicos chamamos de fundamento teleológico (do grego “teleios”, algo completo, fim).
Se, por outro lado, eu tomar uma decisão em que busco valorizar o aspecto existencial, isto é, o quanto essa decisão vai promover a minha existência, posso estar seguindo o Existencialismo como meu fundamento e aí vou buscar os ingredientes dessa abordagem para justificar e fundamentar minhas decisões.
Se eu levar em conta minha religião, seja o Cristianismo, Judaísmo, Budismo, Islamismo etc., então vou levar em conta os valores éticos que minha opção religiosa indica.
Você compreende? Então não é questão que alguém não seja ético ou não, mas qual é o ponto de partida que a pessoa leva em conta para encontrar os “ingredientes” para elaborar a sua “receita” que vai lhe oferecer o referencial de certo e de errado para suas decisões.
Então vamos colocar tudo isso na prática com um exemplo interessante em que partiremos do pragmatismo para o qual não existe uma verdade ou valores absolutos. A verdade é algo que acontece a uma percepção ou ideia quando se mostra útil, que funciona e dá certo. Pode se dizer que as percepções ou ideias seria como uma chave de fenda e a sua validade dependeria da capacidade de apertar o parafuso certo e de uma maneira certa que produz um resultado uma ação, daí o nome pragmatismo (do grego “pragma”, ação). Não é nosso interesse entrar muito em reflexão abstrata e teórica, mas é possível, com algumas limitações, aproximar o pragmatismo de uma outra abordagem chamada de utilitarismo, que também compartilha o interesse pelos resultados. Em resumo essa abordagem considera uma decisão certa é aquela que dá certo, que funciona ou que é útil.
Assim, é normal pensarmos que tudo que dá certo é bom ou correto. Atualmente o sucesso é tido como paradigma de aprovação. Assim, se a sala de aula está cheia, é sinal de que o professor é competente. Se a empresa está lucrando, significa que seus produtos e serviços têm qualidade. No mundo religioso, igreja lotada é sinônimo de ministério abençoado. Mas, será mesmo?
O problema é quando aplicamos esta mesma lógica para o campo da ética em nossas decisões diárias. Mensalão, petrolão etc., são exemplos típicos. Assim surgem situações em que “benefícios” são generosamente distribuídos para que projetos de leis ou interesses de grupos possam ser aprovados e empresas sejam beneficiadas com obras de elevado rendi mento; ou mesmo o alimento à corrupção com o pagamento de propinas a servidores públicos que participam de “esquemas”, que deixam “passar” ao largo certas exigências legais beneficiando empresas ou pessoas e por aí vai. Enquanto o esquema funciona, tudo é “correto” e cada recebe a sua “parte”. Mas alguém se alguém entra em prejuízo no “esquema”, acaba colocando a “boca no trombone”, coloca tudo a perder.
Parece-me que esta lógica “mensalista e petroleira” ainda reina solta em toda tessitura da vida ética nacional, pois não é apenas em altas esferas do poder que é possível detectar isso, na “vidinha” comum também é possível ver inúmeros casos de gente “pega com a mão na botija”.
Quem nunca ouviu falar do funcionário que apresenta para reembolso notas fiscais mais altas do que as despesas que fez? Nos restaurantes e nas corridas de táxi, é “normal” pedir comprovantes com valores mais altos e a pessoa vai se dando bem, até o dia em que é descoberta e vai para o “olho da rua” e fica com a “ficha suja”.
E o cônjuge, que vive um caso ex-traconjugal, escondendo a situação da família durante anos a fio? Um belo dia, um telefonema indiscreto, uma mensagem digital ou um bilhete perdido no paletó ou na bolsa, põem a farsa por água abaixo.
E o que dizer do motorista com a sua pontuação já beirando os 40 pontos, acaba colocando a infração em nome de outra pessoa. Se dá certo, por que não pensar que isso é certo?
Todas são situações em que tudo parecia dar certo, apesar dos flagrantes transgressões da verdade dos fatos, da lei, da retidão e equidade. Logo, nem tudo que dá certo, ou que funciona por um tempo, é certo e correto. Se a sua ética é orientada pela funcionalidade, utilidade ou por princípios que sinalizam se nossos atos estão certos ou não, seu fundamento é utilitarista que desconsidera que a verdade precisa ser compatível com a realidade dos fastos e não com a conveniência ou adequação e com os resultados.
O contrário disso é uma postura ética fundamentada em valores egoístas e que estimulam a “lei de Gérson” – a lei da vantagem pessoal – em que a ideia é congelar a realidade dos fatos e fazer valer nosso interesse pessoal ou de nosso grupo. Satisfeito isso, tudo volta ao normal como se nada tivesse acontecido, até que surja outra oportunidade.
Precisamos buscar resultados, mas que sejam compatíveis com a justiça, com a verdade factual e retidão. Se almejamos um mundo melhor, o desafio é, escolher entre buscar o utilitarismo pragmático ou ter uma vida orientada por princípios éticos fundamentados em elevados, perenes valores e responsabilidade para com o legado que temos a deixar para as gerações futuras. Somente assim nossas atitudes e decisões serão essencialmente certas e responsáveis.
Por Lourenço Stelio Rega – Eticista e Especialista em Bioética pelo Albert Einstein Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa (Hospital Albert Einstein)













