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O cúmulo da indiferença

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“E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; e as ensinarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa…” (Deuteronômio 6:6-7)

Recentemente, circulou nas redes sociais um vídeo com uma legenda perturbadora: “Absurdo: mulher morre afogada enquanto seus familiares observam, sem fazer nada”. As imagens confirmavam o horror: uma mulher levada pelas águas de um rio sob o olhar passivo de quem deveria socorrê-la — familiares inertes e alguém filmando. Nos comentários, a revolta era unânime. Qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade se indigna diante de tamanha frieza. Aquela cena descreve com fidelidade o que poderíamos chamar de “o cúmulo da indiferença”; o retrato cruel de uma geração insensível, cumprindo o que o Senhor profetizou: “E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará” (Mateus 24:12).

Entretanto, antes de apontarmos o dedo, precisamos examinar o próprio coração. Não estaremos, em certa medida, reproduzindo esse mesmo comportamento no âmbito espiritual? Não falo aqui de incrédulos, mas de quem professa a fé em Cristo. Quantos filhos estão sendo arrastados pelas correntezas do pecado enquanto, dentro de casa, a Bíblia permanece fechada, a oração é esquecida e o ensino da Palavra é negligenciado sob os olhares indiferentes de quem deveria agir?

Há lares em que bens materiais e ocupações terrenas sufocam o bem-estar eterno da família. Sobra tempo para o entretenimento e as redes sociais, mas não para o culto doméstico, para a oração e para as boas conversas ao redor da mesa, desprezando a orientação: “E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; e as ensinarás a teus filhos…” (Deuteronômio 6:6-7). Além disso, a presença na Escola Bíblica Dominical e nos cultos públicos tem sido trocada por eventos triviais. Pior ainda são os pais que, quando vão à igreja, deixam seus filhos em casa. Quando o culto é tratado como algo secundário, os filhos aprendem — sem que uma única palavra seja dita — que Deus também é secundário. Essa omissão é gravíssima; é irresponsabilidade com a eternidade alheia.

Precisamos ter em mente que o pecado não é inofensivo: “o salário do pecado é a morte” (Romanos 6:23). Ele conduz à perdição eterna. Se realmente cremos nisso, como podemos agir com tamanha leveza? Como pais podem dormir tranquilos sabendo que seus filhos caminham para o abismo? Não seria esse comportamento, mais que a cena do vídeo, o verdadeiro retrato do absurdo? Lembre-se: a fé vem pelo ouvir a Palavra (Romanos 10:17), e se os filhos não a ouvem em casa nem na igreja, onde a ouvirão?

A omissão traz consequências gravíssimas. O Senhor declarou: “Quando eu disser ao ímpio: Certamente morrerás; e tu não o avisares… o seu sangue da tua mão o requererei” (Ezequiel 3:18). O princípio é claro: quem conhece a verdade e se cala torna-se cúmplice da tragédia. Não salvamos nossos filhos por mérito próprio — a salvação é obra exclusiva da graça — mas fomos postos como vigias para apontar-lhes o Caminho. Cruzar os braços enquanto eles são tragados pelo sistema do mundo é tão cruel quanto filmar calmamente o afogamento de um familiar.

Se cremos que uma alma vale mais que o mundo inteiro (Marcos 8:36), por que não cuidamos do bem mais precioso que temos? De que adianta garantir-lhes conforto, formação acadêmica e lazer se negligenciamos o essencial? O maior legado dos pais não é um patrimônio financeiro, mas o exemplo de piedade e o compromisso inegociável com o Reino de Deus.

É tempo de arrependimento. É hora de assumir o dever espiritual intransferível no cuidado com aqueles que deveriam ser objetos do nosso maior amor. É urgente conduzir os filhos à instrução bíblica, orar com eles e viver o Evangelho diante deles. Não sejamos espectadores da morte dentro de nossa própria casa. Que haja lágrimas onde houve descuido, firmeza onde houve concessão e fidelidade onde, até hoje, houve negligência.

Cleber Montes Moreira
Pastor da Igreja Batista de Vila Antunes, Cajati (SP)
Colunista do Portal

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