
Um dia tive de parar na estrada em um posto de gasolina vi em um veículo estacionado a Bíblia aberta em cima do painel diante do para-brisa. Curioso, logo fui ver em que texto estava, era o Salmo 91, o Salmo preferido de pessoas que acreditam que a Bíblia vai trazer alguma proteção ou sorte como um livro com poderes mágicos. Já vi isso se repetir em hotéis, em hospitais. Aproveitando esse 2º domingo de dezembro, o Dia da Bíblia, como podemos compreender o seu significado diante de sua permanência na história?
A Bíblia é o livro mais traduzido, distribuído e acessível ao longo da história. Foi escrita originalmente em hebraico, aramaico (Antigo Testamento – AT) e grego koinê (Novo Testamento – NT). A primeira tradução da Bíblia (AT) foi para o grego koinê, chama da de Septuaginta (LXX). Traduzida para cerca de 750 idiomas, partes da Bíblia existem traduzidas para cerca de 3.600 idiomas e dialetos. Ao longo da história estima-se que tenha alcançado cerca de 6 bilhões de pessoas.
Exemplares da Bíblia já foram queimados por governos totalitários, tem sido proibida em ser exposta em órgãos públicos com o argumento da laicidade do governo.
Há muitas maneiras para se estudar a Bíblia. Você pode estudar livro por livro, pode estudá-la por temas e aí teremos até como que uma teologia sistematizada. Recentemente participei de um trabalho editorial para o arranjo dos textos bíblicos em ordem cronológica de seus relatos e a Editora Geográfica produziu uma Bíblia em Ordem Cronológica para ser lida durante um ano.
Em outubro passado tive o privilégio de participar de uma audiência pública no Senado para demonstrar o percurso da produção bíblica desde o seu texto original até as traduções que temos em português e em outros idiomas. Foi possível demonstrar também o processo de equivalência adotado nas diversas traduções.
Ao longo do tempo tenho descoberto que o centro da Bíblia e sua mensagem é o próprio Deus. Assim, tudo começou antes de tudo começar na eternidade quando Deus desejou criar o universo e a humanidade. Nesse sentido, penso que os versículos que precisariam ser lidos em primeiro lugar estariam no Evangelho de João 1.1-14, quando temos Jesus, o “logos” (palavra) de Deus. O livro de Hebreus ensina que “pela fé entendemos que os mundos, pela palavra de Deus, foram criados; de maneira que aquilo que se vê não foi feito do que é aparente” (11.3).
Ao criar o ser humano, Deus o colocou com o gestor da obra criada para gerir e descobrir na criação os recursos que o Criador disponibilizou para que a humanidade pudesse se estender em toda terra tendo qualidade e dignidade de vida (Gn 1.26ss). Em geral no campo da missiologia se diz que esse seria o “mandato cultural” do Criador para a humanidade.
Aprofundando mais esse tema, tenho preferido chamar esse ato divino de “delegação empoderada de Deus”, isto é, Deus – o Criador – delega ao ser humano continuar esse processo de cuidar da natureza criada e o dota de capacitação (o empodera) para gerenciar e descobrir os fenômenos da natureza para o desenvolvimento da própria humanidade.
O profeta Isaías (43.7) menciona que fomos criados para a glória de Deus, que pode ser mais profunda mente compreendido à luz do que Jesus chama dos dois grandes mandamentos (Mc 12.29ss) que, no fundo, implicam em três esferas de relaciona mento – Deus, eu próprio e meu próximo. E se unirmos com a o conceito da delegação empoderada de Deus, compreenderemos que viver para a glória de Deus seria então, viver em harmonia e comunhão com Deus, co migo mesmo (autoimagem equilibrada – Romanos (12.3), com o próximo e com a natureza criada.
Ao ser humano caberia viver esse estilo de vida e exercer a liberdade recebida de Deus, cumprindo o seu papel. Assim o Criador coloca no Jardim do Éden, o que podemos chamar de “vetor de decisão” em que ao escolher seguir a finalidade para qual foi criado, Adão e Eva deixariam de lado a árvore do conhecimento do bem e do mal ou certo e errado, que são paradigmas do campo da ética. O ser humano preferiu seguir o seu próprio caminho declarando sua autonomia diante do Cria dor, abandonando o Plano da Criação (Gênesis 3).
Veja que as consequências dessa rebelião afetaram diretamente os quatro pontos essenciais que constituíam o glorificar a Deus – motivo essencial da criação – primeiro houve a ruptura com o Criador, depois tiveram vergonha de si mesmos e se esconderam, em seguida, diante da pergunta do Criador, Adão rompeu em seu relacionamento com Eva e vieram as consequências ambientais em que a terra passa a produzir ervas daninhas. A partir disso a raça humana vai se degradando cada vez mais e é assim até aos dias de hoje.
O Criador poderia ter destruído tudo e recomeçado seu projeto de cria ção, mas como ele amava tudo o que criou e o ser humano, decide se lançar em um projeto de restauração de tudo, ao declarar que do descendente da mulher viria essa restauração – seu Filho que enviou para esse elevado objetivo como resposta de seu amor por nós e pela criação (Romano 5.8- 11). No campo dos estudos bíblicos e teológicos chamamos isso de “pri meiro evangelho” (protoevangelho).
Deus se lança, então, em missão para cumprir esse projeto de recuperação da criação e criatura e toda narrativa bíblica vai cuidar de descrever esse projeto divino. Por isso que prefiro compreender a Bíblia como a história de Deus.
Deus chama Abrão (depois Abraão) e sua descendência para que fossem bênção para todas as nações, demonstrando a vida desejada por ele desde seu Plano da Criação. Assim veio o povo descendente de Abraão – Israel – para ser uma nação de con traste para demonstrar às nações o Deus Criador e Proprietário de tudo, por meio da obediência à Lei. Israel acaba se envolvendo com a idolatria e imoralidade das nações sem Deus e falha em cumprir seu propósito em ser um povo modelo e acaba desaparecendo como nação em 722 a.C.
De Israel sobram duas tribos – Benjamim e Judá – surgindo o que foi conhecido de povo de Judá, que também se mistura com as nações vizinhas deixando de cumprir o papel que herdou de Abraão. Em 586 a.C.
Judá é levada cativa para a Babilônia e, lá distante, vai se recuperando como povo de Deus, que volta do cativeiro e reassume seu papel de nação, só que acaba se afastando e se isolando dos povos, se tornando, de certo modo, arrogante. Desse povo vem o filho de Deus – Jesus – que acaba sendo por ele crucificado e morto.
Com a rejeição de Judá em cumprir seu papel e com a vitória de Jesus sobre a morte pela ressurreição dando, então, vida a todos quantos passam a crer nele, Deus dos dois povos – ju deus e não judeus (gentios) – faz um só povo (Ef 2; Rm 9-11) – a igreja que passa a ser o povo de Deus e recebe dele o papel de ser seu instrumento como povo de contraste, povo modelo e a sua tradução em recuperar toda criação e criatura, para que viva intensamente o Plano da Criação de forma concreta por meio de uma vida transformada e transformadora até que o próprio Jesus volte e promova finalmente a restauração de tudo. A igreja, portanto, é essa continuação que vem do protoevangelho e do chamado de Deus a Abraão, do povo de Israel, do povo de Judá. Por meio dessa visão não há como entender a igreja a partir dela própria. Ela faz parte da história de Deus.
Neste sentido, o missiólogo Christopher Wright afirma que […] “não é tanto que Deus tenha uma missão para sua igreja no mundo, mas que Deus tenha uma igreja para sua mis são no mundo. A missão não foi feita para a igreja; a igreja foi feita para a missão: a missão de Deus”.
Assim, a Igreja se reveste de importante papel diante da história de Deus, muito mais do que meramente uma instituição repleta de atividades dominicais. Ela, então participa da missão de Deus (missTo Dei) em ser seu povo, uma vitrine do Plano da Criação que além de sua MISSÃO DA PROCLAMAÇÃO, tem seu papel avançando na MISSÃO DA PRESENÇA no mundo decaído e sem Deus. Isso seria como dois trilhos de uma estrada de ferro que precisam estar juntos para que a viagem continue e a igreja possa cumprir o seu papel como o povo de Deus.
Em toda essa história de Deus, o ponto de referência é o Plano da Criação de onde a humanidade abandonou e a salvação o traz de volta por meio do arrependimento e conversão. Tan to que na Nova Jerusalém teremos de volta a árvore da vida/Jardim, que no começo foi abandonado (Gênesis 3.22; Apocalipse 22.1-2) e assim o ci clo se fecha para um novo tempo e o reinicio de tudo em que assumiremos uma nova humanidade inaugurada pelo Filho de Deus – Jesus (I Coríntios 15.35ss).
A Igreja é o povo de Deus cumprindo a missão de Deus atuando no mundo proclamando a mensagem de restauração e vivendo essa mensagem como sal, luz (Mateus 5.13ss) e os cristãos como embaixadores do reino de Deus (II Coríntios 5.20) onde estive rem vivendo na vida pessoal e pública. Assim será uma igreja viva que vai além dos limites de seu templo, fazendo diferença no mundo expressando uma mensagem viva, transformada e transformadora.
Essa é a história da Bíblia – a história de Deus restaurando toda a história por meio das Boas Novas.
Pr. Lourencio Stelio Rego
Extraído do OJB













