Convenção Batista Fluminense
Home Artigos O que é ser Igreja nos outros seis dias

O que é ser Igreja nos outros seis dias

360
O essencial é que não “vamos” à igreja: nós somos a Igreja. Quando nos reunimos para adorar a Deus  cumprimos nossa identidade como corpo de Cristo.

Vamos estimular ao leitor a se aprofundar na significação do que é ser Igreja e do que é ser membro dela. Se prepare para virar a página de sua história para viver o elevado, mas também profundo significado do Evangelho em seu viver.

Em primeiro lugar precisamos revisitar o Novo Testamento e aprofundar o significado do que seja Igreja. Neste sentido geralmente temos restringido a compreensão do que seja igreja a um local, um espaço restrito em que vamos em geral aos finais de semana. Essa compreensão ganhou significado especialmente quando o Cristianismo se tornou religião oficial do Império Romano se distanciando da igreja dos primeiros séculos, a Igreja Primitiva, que podemos chamar de Igreja 1.0. Aí surgiu uma espécie de Igreja 2.0, em que o Imperador escolhia os líderes da Igreja, que foi se centralizando em um espaço em que Deus supostamente se restringiria a habitar, bem ao estilo da compreensão do Antigo Testamento. Assim, as cerimônias ocorriam dentro desse espaço sagrado que eram legitimadas por líderes especiais o clero oficial os quais tinham a autoridade de realizar essas cerimônias, cultos, missas, que se tornaram sagradas e meios de graça.

Mesmo depois da Reforma Protestante, ainda que de forma menos intensa, essa compreensão continuou, tanto da compreensão da “igreja um local sagrado”, quanto da separação entre clero (autorizados produtores e distribuidores da cultura religiosa) e leigos (consumidores dos bens religiosos e da salvação). Desta forma ainda hoje falamos “vamos à igreja” quando desejamos ir ao culto em um local para isso, por exemplo, um salão de cultos, um templo etc.

Algumas implicações podem ser descobertas como resultado dessa compreensão, entre elas está o fato de que poderemos estar dividindo nossa vida em dois níveis – a vida privada e religiosa vivida aos domingos e a vida pública vivida nos outros seis dias da semana. Aliás, isso foi reforçado no transcurso da Modernidade. Além disso, se o templo (Igreja) foi transformado em espaço sagrado em que Deus habita, ele fica nesse espaço restrito, mas a compreensão do Novo Testamento é que tudo de nossa vida, todo espaço, toda nossa agenda, nosso corpo, deve ser dedicado a Deus (Lucas 9.23 com Romanos 12.1ss). Então, novamente, tem acontecido uma separação entre local sagrado e local não-sagrado que pertence ao mundo profano, promovendo uma separação entre sagrado e profano no mesmo sentido de que o domingo é sagrado e os outros seis dias não o são.

O que é ser Igreja nos outros seis dias?

Voltando ao Novo Testamento, no período da Igreja 1.0, aprendemos com Jesus, quando conversava com a mulher samaritana (João 4) em que ela lhe perguntou o local da verdadeira adoração se lá em Samaria ou em Jerusalém. Jesus desloca o núcleo da pergunta de um espaço geográfico para a essência. Desde o Plano da Criação Deus estava na realidade procurando não um local, mas corações de verdadeiros adoradores (João 4.21-24). Estêvão, antes de morrer nos ensinou que Deus não habita em templo feitos por mãos humanas (Atos 7.48-50) , que Paulo também repete (Atos 17.24) e vai mais longe, no mesmo sentido da resposta de Jesus afirmando que nosso corpo é o santuário de Deus (I Coríntios 6.19). Esse ensino já começa a ser visto em um momento de transição no que chamamos na interpretação bíblica de “revelação progressiva”. Um exemplo disso está no profeta Isaías (Isaías 1.10-20 com 29.13).

Podemos então resumir tudo concluindo que na realidade em vez de irmos à igreja (um espaço), somos a igreja (por quem Jesus morreu e ressuscitou) quando estamos reunidos com os demais irmãos, salvos por Jesus Cristo, em adoração, em culto festejando a soberania de Deus, seja em um templo, em um salão, em um lar, ou, em países que perseguem os cristãos, debaixo de árvores. Somos Igreja quando, nos outros seis dias, estamos em nosso trabalho exercendo nossa vida profissional , seja como empresário, governante, funcionário público ou da iniciativa privada, profissional liberal, motorista no trânsito, estudante, vizinho, na academia, entre os amigos etc. Então somos igreja em tempo integral e não apenas em um final de semana, afinal igreja é muito mais, muito mais mesmo, do que um ponto de encontro de final de semana.

O missiólogo Ed Stetzer nos ensina que “se vivo uma vida missional, vivo uma vida moldada pela missão de Deus (missão Dei).”. E o que é essa missio Dei? É o alvo de Deus em resgatar toda criação e criatura de seu estado de rebelião trazendo de volta para si, para o Plano da Criação do qual foi abandonado.

Podemos ainda aprender com Chris Wright que nos lembra que “… nossa tendência de reduzir o Evangelho a uma solução para o problema do nosso pecado individual e a um cartão magnético para abrir a porta do céu, de modo que substituiremos essa impressão reducionista por uma mensagem que tem a ver com o reino cósmico de Deus, em Cristo, que, no final, erradicará o mal do universo de Deus e resolverá nosso problema de pecado individual, obviamente”. Assim, se converter ao Evangelho é mais do que conseguir um cartão magnético para entrar na Nova Jerusalém, é adotar uma nova forma de vida, à luz da missio Dei (Rm 12.1ss; Gl 2.20) e isso em tempo integral (Lucas 9.23). O missiólogo Goheen afirma que “não há um centímetro quadrado da vida sobre o qual ele não diz: ‘Isto é meu!’”.

Podemos então compreender que, se vivo uma vida missional, vivo uma vida moldada pela missão de Deus (missio Dei). A partir de minha conversão à minha agenda e o meu projeto de vida é agora o projeto da missio Dei e eu me entrego a Deus para que ele, em sua missão de restaurar toda criação, inclusive o indivíduo, me tenha como seu instrumento e ferramenta. Para ilustrar, vamos pensar em um tripé, em que se uma perna for retirada tudo desmorona. Vamos chamar de tripé da missão Deianunciar verbalmente + viver concreta e responsavelmente + ser realmente.

Permita-me uma ilustração sobre o povo de Deus. Israel foi libertado não para sua própria independência, mas, em última análise, para as nações, que seriam abençoadas por meio dela. Jesus nos libertou da escravidão e condenação do pecado para sermos dele instrumento para as pessoas serem por nós abençoadas e conhecer o caminho de volta para Deus (II Coríntios 5.17) por meio do reconhecimento de seu estado de rebeldia e do único caminho de volta para Deus – Jesus Cristo (Atos 4.8).

Para ilustrar de forma mais prática vamos pensar como se representássemos a mão de Deus estendida ao mundo nos sete dias da semana, onde estivermos, e o que estivermos decidindo e fazendo. Veja a figura a seguir em que o:

  • dedo indicador representa o nosso papel ligado à missão da proclamação (Kerygma) , sendo nós missionários, evangelistas ou não, pois podendo ou não ter estes dons, somos testemunhas de que éramos cegos e agora vemos (João 9.25). (Mt 28:18-20; Atos 1.8 );
  • dedo médio representa a nossa vida na prática em nosso ambiente de trabalho, de escola, entre os vizinhos etc., demonstrando uma vida exemplar por meio de decisões, ações e relacionamentos a partir dos valores éticos e bíblicos. Uma ética aplicada e de testemunho (Fé ativa);
  • o dedo anelar representa o exercício de nossa influência nas decisões do meio ambiente em que vivemos, em um condomínio, em uma associação, em um hospital, em uma reunião profissional ou de pais na escola de nossos filhos. Uma ética influenciadora e responsiva (Ação no mundo/Contracultura);
  • o dedo mindinho representa a nossa vida social, as nossas amizades, quando vamos em uma festa, mesmo com amigos não cristãos, em que podemos aprofundar a confiança, demonstrar desejo de conhecê-los mais, desenvolver amizade, por meio de um testemunho cristão. Presença na sociedade (Convivência intencional/Vida relacional/ser bênção/Amizade Relacional);
  • e, o dedo polegar representa a nossa sensibilidade às carências dos outros emprestando nossa solidariedade, nosso apoio (Gálatas 6.10). (Generosidade/Compaixão/Acolhimento) .

Temos assim a mão acolhedora missional que demonstra na prática a igreja também nos outros seis dias. Espero que você possa revisitar sua agenda, seus ideais e objetivos e reestabelecer seu projeto de vida para que ele seja conectado integralmente à missão de Deus (missio Dei) em resgatar toda criação e criatura. Desejo que você viva as Boas Novas também nos outros seis dias da semana.

Lourenço Stelio Rega – Eticista e Especialista em Bioética pelo Albert Einstein Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa (Hospital Albert Einstein) – Extraído da Revista Comunhão.

Deixe uma resposta