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A igreja precisa hoje de uma nova Reforma?

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Segundo o Censo 2022, o Brasil tem 47,4 milhões de evangélicos, representando 26,9% da população, que foi abaixo do previsto (cerca de 35%). O Censo ainda informa que havia na época cerca de 580 mil templos, superando o total de escolas e hospitais (511 mil).
Mas não temos dados, por exemplo, sobre o trânsito eclesiástico e religioso, incluindo a evasão de membros ou frequentantes de igrejas locais, o que poderia representar, entre outros motivos, a busca por uma religiosidade mais pessoal e de resultados.
Sobre isso é possível também observar o surgimento de movimentos emergentes que atendem uma política de demanda, dos quais destaco pelo menos dois:

• Igreja emergente de consumo cultural do entretenimento gospel, que busca atender a demanda da busca de uma religiosidade festiva e de um transcendente que venha ao encontro das aspirações dos “buscadores” em uma religiosidade de busca experiencial com Deus. Os cultos são revestidos de elevada performance ao estilo de uma “aeróbica gospel”.

• Igreja emergente da busca pela inclusão que se lastreia nos referenciais da Pós-modernidade centralizados no indivíduo. Neste caso a Bíblia precisa ser atualizada para se sincronizar com as demandas atuais atendendo uma religião do coração (Schleiermacher) em que o indivíduo é o legitimador de sua experiência na qual Deus se torna um protagonista. O relacionamento se baseia em uma ética de consenso em vez de uma ética bíblica. Aqui há o acesso para a homossexualidade, alternativas matrimoniais e mesmo o aborto ou outra demanda ética que a vontade do indivíduo venha a indicar um tempero religioso de um herói Jesus histórico, que nada tem a ver com o Jesus do Novo Testamento.

Veja que, em todos esses movimentos, o ponto central é o atendimento da demanda do fiel.

E as denominações históricas onde estão? Muitas se institucionalizaram, e é possível que muitas estejam se tornando entrópicas cumprindo seus programas e agendas mantendo seu “giro operacional” dominical. Em uma classe de teologia ouvi que, neste caso, talvez estejam respondendo a perguntas que já não existem mais. Esperamos que líderes estratégicos nesses grupos possam encontrar novos caminhos aproveitando a história já vivida.

Um ouro cenário tem surgido com o discurso político “semantizado”, que vai se tingindo com a agenda e terminologia dos valores bíblicos criando militâncias que se locdalizam em extremos de uma espécie de “fita métrica” ideológica, especialmente a partir da última eleição para a presidência. O que se tem notado é o surgimento de intensa divisão inclusive alcançando o relacionamento entre muitos pastores, famílias e amigos, tendo se intensificado um senso de vigilância e certo “policiamento” de modo que quem pensa diferente pode ser “cancelado” e “bloqueado”.

Às vezes me pergunto se estamos “anestesiados” diante de um país em decadência moral, cada dia mais caótico, secularizado, corrompido, inseguro em que donos do poder e o poder de donos se tornam a lei reguladora da vida nacional.

Talvez por estarmos vivendo uma espécie de ocupacionismo dominical provocado pelo pragmatismo-funcional, pelo salvacionismo escatológico, podemos estar tornando nosso espaço evangélico cada dia mais entrópico e desinteressado nesse cenário nacional alimentando a esperança escatológica da urgente volta de Jesus.

Será que o que ocorreu com a igreja alemã diante do nazismo não nos ajuda a compreender o papel da igreja em relação ao mundo em sua missão da presença e seu papel profético, que vá além da missão da proclamação?

A dicotomia clero-laicato, em alguns círculos, está se fortalecendo e pastorear para alguns tem se tornado mais um assunto de empregabilidade, do que cuidar de gente. Se no passado falava-se que o catolicismo no país era nominal, hoje os evangélicos não estariam indo para o mesmo caminho?

Remeto para você leitor a pergunta inicial: precisamos ou não de uma nova reforma na igreja evangélica de hoje?

Pr. Lourenço Stelio Rega – Extraído da Revista Comunhão.

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