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A idade cronológica na verdade não conta!

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Na sociedade contemporânea que idolatra a juventude, a beleza e a produtividade, a vida longeva é frequentemente vista como um fardo, uma fase de declínio ou, pior ainda, o fim da relevância. Nessa sociedade, com seu ritmo acelerado, tende a marginalizar aqueles que não conseguem acompanhar, relegando a sabedoria e a experiência a um segundo plano. Assim, idosos são tidos como obsoletos, desgastados que devem ser considerados em plano inferior, e, muitas vezes, um custo para a própria sociedade.

Lembro de uma empresa no Brasil, que passou por um processo de fu­ são, ter estabelecido que a idade ideal para a manutenção da nova equipe seria cerca de 35 anos. Praticamente demitiu de seu quadro quase toda equipe que estava além dessa idade. Passados alguns meses da nova fase, diversos setores da empresa começaram a entrar em colapso. O vigor daquela turma de remanescentes não foi suficiente para manter a estabilidade do funcionamento da empresa em sua totalidade. Os idealizadores daquela “reengenharia” descobriram que a causa dos fracassos estava na ausência de experiência sólida da equipe e muitas decisões desastra­ das foram também fruto da ausência de sabedoria e flexibilidade que era até comum na atuação operacional mantida pela antiga equipe.

Na cultura oriental, e vamos lembrar que a cultura dos povos bíblicos, especialmente os do Antigo Testa­ mento, é oriental, o vigor dos jovens fica em plano menor do que a sabedoria encontrada na vida longeva. E a história que acabamos de contar tem esse enfoque. Os longevos, ainda que possam ter menos vigor físico, talvez até serem menos ativos, demonstram serenidade, resiliência diante dos desafios da vida e fortalecidos de especial esperança em um ambiente nem sempre favorável.

O ensino bíblico aponta para uma visão radicalmente diferente, em que a vida longeva não é um fardo, mas uma coroa de esplendor, um período de dignidade e propósito contínuo, enraizado em uma profunda honra e símbolo de sabedoria. O autor de Provérbios nos ensina que “os cabelos brancos são coroa de glória, para quem andou nos caminhos da justiça” (Pv 16.31). O que o poeta bíblico nos quer ensinar aqui, entre outras coisas, é demonstrar que o cabelo branco ou grisalho (como diz no original em hebraico), longe de ser um sinal de envelhecimento, é um símbolo de dignidade e de uma vida plena e bem vivida, como recompensa de um percurso de integridade, um testemunho visível de uma longa caminhada na vida reta e justa à luz dos valores divinos.

Na época do líder Moisés, temos o ensino de que o respeito ao longe- vo não é apenas uma sugestão, mas um mandamento. Sobre isso, ele escreveu: “Levante-se na presença do idoso e honre a pessoa do ancião” (Lv 19.32). Vamos lembrar que na cultura antiga a atitude de se levantar diante de alguém, mais do que apenas um gesto físico, era um sinal de reverência e humildade diante de alguém considerado como superior, que tenha acumulado sabedoria e discernimento. Isso aponta para o fato de que os idosos deveriam ser considerados valorosos, fonte viva de sabedoria, um pilar e sustentáculo da comunidade.

Ainda que as energias e o vigor físico possam ir sendo reduzidos na vida, temos na Bíblia a promessa divina de sustento até os momentos finais de vida. O profeta Isaías nos lembra esse ensino ao dizer: “Até à vossa velhice, eu serei o mesmo; e ainda que estejam de cabelos brancos, eu vos sustentarei. Eu vos fiz, e eu vos levarei; sim, eu vos sustentarei e vos salvarei” (Is 46.4). Isso nos dá segurança diante da natural fragilidade física que os anos vão tom ando. Os ensinos bíblicos confrontam esse medo diretamente, não com a promessa de força eterna, mas com a garantia da fidelidade de Deus que não abandona a Sua criação, prometendo ser o mesmo cuidador em todas as fases da vida, e seu cuidado e sustento são uma garantia. Ainda que a velhice possa ter menos vigor físico, e para alguns até ser um período de exaustão, a dependência de Deus pode levar a pessoa longeva a experimentar a profundidade da graça e do poder sustentador divino.

Ainda que o mundo contemporâneo nutra o mito de que a produtividade cessa com a idade, o salmista nos lembra que “na velhice ainda darão frutos, serão viçosos e florescentes” (SI 92.14). Com isso aprendemos que a produtividade não pode ser medida apenas em ativismo, agitação, tão comuns na vida jovem, mas em sabedoria compartilhada, em resiliência diante dos destemperos naturais da vida, de uma vida de oração intercessora, e um legado de fé transmitido para as próximas gerações. A vida longeva é uma nova fase de propósito e razão de ser.

Diante de todos esses ensinos que nosso Criador nos presenteia, temos ok desafio de aprender caminhos saudáveis para revisitar a valorização aos longevos considerando-os não como vidas descartáveis, mas levar a sociedade a valorizar o legado que essa fase da vida nos proporciona.

Ações afirmativas necessitam ser germinadas nas gerações mais jo ­ vens para olhar para o longevo como uma fonte de sabedoria, de experiência. Jovens e pessoas de meia idade imergidos na vida digital nem sempre possuem tempo para olhar com carinho ao longevo e dedicar tempo para ouvir suas experiências, suas histórias, ainda que de colorido “analógico”, mas que destilam sabedoria, mentoreamento repleto de ensinos e curiosidades interessantes da vida. Em um mundo rápido e impaciente, é uma arte ver filhos e filhas, até mesmo casados olhar com carinho para seus pais e avós e ver neles um reflexo de sua história.

No campo da educação, aprendemos que o ser humano deve ser considerado um sujeito histórico, e assim é a construção da vida na linha do tempo, e isso nos leva a olhar para a história dos longevos, ouvi-los, buscar ativamente seus conselhos, e incluí-los na vida familiar e com unitária. A igreja, em particular, deve ser um ambiente onde os idosos não são colocados em um canto, mas atuam como mentores e professores, transmitindo a fé e experiência segura para a vida equilibrada e com sabedoria. Pois esse é o ensino e mandamento que temos no livro de Êxodo (20.12), “honra a teu pai e a tua mãe”, que é um princípio que se estende ao cuidado e à proteção dos idosos.

Por fim, mas não concluindo, em uma sociedade que muitas vezes terceiriza o cuidado aos longevos que, muitas vezes, são internados em casas de repouso e instituições, a visão bíblica nos desafia a uma responsabilidade familiar e comunitária mais profunda. O cuidado deve ser uma expressão de amor e honra, pois a vida longeva, à luz da Bíblia, não é o crepúsculo da vida, mas o seu coroa- mento. É um período para viver com dignidade, dar frutos de sabedoria e testemunhar a fidelidade de Deus.

Assim, convidamos a toda a sociedade a olhar para os cabelos grisalhos, os cabelos brancos ou a falta deles, não com pena, mas com reverência e honra.

Por Lourenço Stelio Rega – Extraído do OJB.

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