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Futebol é o que mesmo? Parte 2

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No artigo anterior, iniciei com uma ilustração sobre o futebol, buscando indicar a necessidade de que não bastaria ir ao campo, passar o tempo da partida, fazer belos passes e lances, estar bem ativo em campo, sem, contudo, cumprir o alvo que é marcar gols; aliás, cumprir a frase que já se tornou jargão sobre o assunto – futebol é bola na rede.

Apresentei diversas situações até importantes de nossa vida como igreja e como cristãos, mas a pergunta ficou no ar: estamos, de fato, “marcando gols”, ainda que bem ativos aos domingos cuidando das “coisas da igreja”, evangelizando, plantando igrejas, fazendo cultos online, “indo à igreja”, ainda que sejamos a igreja e somos também Igreja onde estivermos? Será que é muito movimento, mas pouco deslocamento em relação ao alvo essencial que Deus nos tem confiado?

Essa pergunta nos leva a mais outra pergunta: o que é “fazer gol” quando pensamos em Igreja, em nossa vida como cristãos?

A resposta vem quando olhamos para o Criador, para compreender Seu Plano da Criação. É o caminho que Jesus apontou quando foi indagado sobre o divórcio e foi buscar aí, no começo de tudo, para compreender o plano matricial de Deus a partir do qual toda a vida se desenvolveria (veja a frase de Jesus “não foi assim desde o princípio” – Mateus 19.8).

E como foi o Plano da Criação, qual foi o objetivo do Criador em ter dado existência para tudo? Alguns apontam em resumo que foi para a glória de Deus (Isaías 43.7 e Efésios 1.12). Ao buscar a compreensão disso de forma mais prática nas Escrituras é possível conectar esse ensino com o de Jesus, sobre algo que é maior para todos nós ao se referir aos dois grandes mandamentos (Marcos 12.29ss), que no fundo refletem três níveis de relacionamentos: amar a Deus sobre todas as coisas, a partir disso amar-se a si mesmo (ter autoimagem equilibrada, Romanos 12.3) e projetar no próximo esse amor a si mesmo.

Prosseguindo, se folhearmos o Plano da Criação em Gênesis 1 e 2, descobriremos que Deus, ao nos criar à Sua imagem, nos transmitiu características (atributos) deles ao sermos ensinados que Ele nos criou – homem e mulher – segundo a Sua imagem (imago Dei). Entre estas características recebemos o amor, a santidade, a liberdade (não a autonomia), a criatividade, mas, também, o desejo divino de que continuássemos o desenvolvimento de sua criação (atributo cocriacional) ao nos delegar empoderadamente a gestão e o cuidado da obra criada (Gênesis 1.26ss). Em missiologia, em geral, se utiliza a expressão “mandato cultural”.

Então, poderíamos dizer que o objetivo para o qual existimos é viver em harmonia e comunhão com Deus, conosco mesmos e com o próximo e com a obra da criação. São quatro pilares sobre os quais nossa vida está assentada e firme. E assim, após a criação de tudo, Deus delega-nos gerir e cuidar da criação, dando-nos liberdade para nossas decisões a partir de Suas orientações. Imagino que Deus pela viração do dia (Gênesis 3.8) ia ter com Adão e Eva para dialogar sobre as decisões que tomaram sobre essa missão que receberam. Deus, possivelmente, estaria orientando sobre as decisões tomadas e o quanto estariam dentro das especificações e características próprias segundo o Seu Plano da Criação, o que precisaria ser ajustado alterado e novas decisões e ações que seriam necessárias também dentro desse Plano.

Em outras palavras, os seres humanos foram criados livres e, como serem finitos, teriam diante de si as especificações próprias do Plano da Criação e não a sua vontade, pois isso afirmei que foram criados livres, mas não autônomos, pois para isso, precisariam ser infinitos, donos a criação.

Deus os colocou no Jardim do Éden para ali viver a sua vida e dar início à raça humana (Gênesis 1.28), para que vivessem em amor e harmonia com o Criador, desenvolvendo autoimagem equilibrada e em relacionamento saudável entre si e com a natureza criada, cuidando dela criativamente e de forma saudável.

No meio do Jardim, Deus colocou um ponto de decisão ao ser humano para que seguisse esse Plano da Criação voluntariamente exercendo sua liberdade – se desejava continuar como ser criado livre e dependente do Criador para sua vida, decisões e ações, para construir sua história (heteronomia). O ser humano recebe de Deus então a diretiva – se desejasse seguir esse plano original e ser o gestor da criação, se espalhar pela criação como raça humana era só seguir o caminho. E esse ponto concreto de decisão Deus chamou de árvore do conhecimento do bem e do mal (Gênesis 1.16,17). Veja o nome do fruto: bem e mal, que no campo da Ética e Filosofia temos o correspondente de certo e errado. Portanto essa escolha, mais do que um apelo gustativo e digestivo ou mesmo apenas teológico (obediência ou desobediência), era de natureza ética, pois tinha a ver com o exercício da liberdade em seguir ou não Deus como o Criador e dono de tudo, ou seguir seu próprio caminho. Veja que em Gênesis 3.22, Deus mostra que o ser humano, ao decidir tomar dessa árvore tinha declarado independência contra Ele (o Criador) – “eis que o ser humano é como um de nós, conhecedor do bem e do mal” – , isto é, a partir disso demonstrando seu desejo de ser independente, autônomo e dirigir sua vida como quisesse. Mas, não tendo sido criado infinito, o ser humano continuaria sendo dependente de uma fonte externa para suas decisões, nesse caso de Satanás (Gênesis 3.1 ss), agindo de forma diametralmente oposta ao Plano da Criação.

Tudo, então, estava perdido e Deus poderia destruir tudo e recomeçar, mas assim não foi Seu desejo. Como tudo veio à existência motivado pelo desejo e amor do Criador, Ele mesmo replanejou recuperar a criação e a criatura agora afastada do Plano da Criação. Em Gênesis 3.15, temos essa boa notícia, chamada na Teologia como protoevangelho, isto é, o primeiro Evangelho (boa notícia), prevendo enviar o descendente da mulher para vencer aquele que os desviou do caminho – Satanás. Assim, o Cria­ dor planejou a recuperação de tudo enviando seu filho Jesus Cristo (veja Efésios capítulos 1 e 2, especialmente 1.7-10 e 2.1-10).

Esse projeto de Deus chamamos na Teologia de missîo Dei, isto é, a missão de Deus, que a partir daquele momento é colocada em ação e ele se lança a cumprir essa missão em recuperar toda criação e criatura. Tudo na história, a partir dali, estaria sendo encaminhado no cumprimento deste plano redentor para trazer tudo de volta ao Plano da Criação, pois ele não desistiu da obra da criação, muito menos da humanidade criada.

E essa passou a ser a história de Deus e toda a narrativa da Bíblia como livro por Ele inspirado vai descrever essa missão de Deus em cada ato e momento da linha do tempo descrito. Então a Bíblia passa a ser uma espécie de grande narrativa dessa história de Deus, uma metanarrativa divina, como um grande varal em que tudo está de- pendurado nela, a história de Israel, de Judá e da igreja (como o povo de Deus, que dos dois povos fez um só – Efésios 2 e Romanos 9 a 11) etc.

Em geral, fomos desenhando a Igreja que passou a ter sua missão de conquistar o mundo para as Boas Novas e temos desenvolvido um bom desempenho nisso, podemos melhorar e dinamizar muito mais. Essa é o que podemos chamar de MISSÀO DA PROCLAMAÇÃO, tendo também a IGREJA COMO MENSAGEM, aqui temos o desafio de levar o Evangelho onde ainda não foi alcançado, semear novas Igrejas, evangelizar etc.

Mas, Deus quer mais, muito mais, quer nos trazer de volta ao Plano da Criação de modo a que o Evangelho vá além de uma mensagem abstrata e apenas verbal, e venha a se encarnar em nossa vida no cotidiano, transformando-a de modo que nossa história, nossas decisões, nossas ações venham a espelhar o Plano da Criação, venham espelhar aquilo para o qual fomos criados. Por isso Jesus usa a metáfora de sermos sal e luz (Mateus 5.13ss), Paulo fala que somos embaixadores do reino (I Coríntios 5.20). E aqui precisamos descobrir que a igreja tem também a MISSÃO DA PRE­ SENÇA, e isto, envolve a IGREJA EM e COM MOVIMENTO, sendo a tradução e vitrine desse Plano da Criação, um povo de contraste diante do mundo decaído e rebelde. Por isso dizemos que cada cristão não vai à Igreja, todos nós somos a Igreja onde estivermos e quando em celebração estamos juntos adorando a Deus como Igreja também.

A isso podemos chamar de DIMENSÃO MISSIONAL da igreja tendo a missío Dei, como seu ponto de partida, seu fundamento. Em outras palavras, como diz o missiólogo Christopher Wright: “A missão não é uma atividade especializada para apenas alguns pro­ fissionais (missionários ou parceiros de missão). A igreja como um todo existe por causa da missão de Deus. Como já foi dito, não é tanto que Deus tenha uma missão para a Igreja, mas que Deus tem a igreja para sua missão. Deus trouxe a igreja à existência (como o povo em continuidade espiritual orgânica com Abraão) porque Deus é Deus de toda a criação e de todas as nações e Deus está propositadamente trabalhando em toda a história para a reconciliação e redenção de ambos. E Deus cria e chama seu povo redimido para ser cooperado- res dele em sua missão redentora no curso da história terrena, então para ser seus reis, sacerdotes e servos na vida gloriosa, contínua e proposital da nova criação por toda a eternidade” (A Grande História e a Grande Comissão, cap. 9, está sendo publicado em português, pela Editora Vida).

A partir disso, no próximo artigo vamos buscar demonstrar como poderemos marcar gols e ganhar a partida para nosso Criador.

Por Lourenço Stelio Rega – Extraído da CBB.

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