
Imagine um jogo de futebol em que os jogadores fazem belos passes, cuidam bem da defesa, cruzam com maestria a bola de um lado para outro do campo, possuem belos uniformes, a bola é feita de couro legítimo, dentro do formato e peso regulamentar, possuem boas chuteiras, e só de vez em quando pensam e se esforçam para alcançar o gol adversário e, mesmo assim, diante do gol, tendo vencido a defesa do goleiro, nem sempre acabam marcando gol. Como você veria esse time? É bem provável que você concluiria que esse time estaria cumprindo a missão pela metade, pois “futebol é bola na rede”.
Será que muitas vezes não esteja acontecendo conosco o mesmo como cristãos, como Igrejas? Dominicalmente estamos cumprindo nosso papel com o funcionamento das Igrejas, cultos, reuniões, estudos bíblicos diversos, levantamento de ofertas, incentivando os membros das Igrejas a evangelizar, mobilizando a obra missionária, ensaios de conjuntos musicais, do coro de jovens, encontro de jovens, união feminina, mas também de homens, “cultinhos” infantis, construções de novos edifícios, reuniões e encontros regionais e tantas outras atividades e eventos, muitos deles com elevada performance e promovendo bons ajuntamentos e marcando época.
Desde a minha adolescência fui sempre envolvido em todo trabalho da Igreja, começando cedo atuando na Escola Bíblica Dominical (EBD), até mesmo com um antigo cargo de superintendente. Mas uma vez um líder fez uma pergunta que me deixou reflexivo em busca de uma resposta: estamos desenvolvendo muito movimento, mas estaríamos mesmo promovendo proporcionalmente muito deslocamento? E aí pensei nessa ilustração do futebol e gostaria de lhe incentivar a um percurso que pode trazer muito significado para o seu engajamento na obra de Deus e valorizar cada momento nessa abnegação e serviço.
Em primeiro lugar, sempre me inquietou que fomos ensinados que o domingo, dia do Senhor, seria nosso “shabat” (sábado em português), representando o sétimo dia da criação em que Deus descansou de toda a sua obra. Assim, o domingo deveria ser nosso dia de descanso, mas que logo me pareceu um “dia de cansaço”. Como sempre fui muito ativo, fui tentando buscar respostas até que li um livrinho com o título “O Schabat”, do rabino Abraham Heschel, buscando explicar a compreensão do que seria cuidar das coisas durante a semana e no “schabat” (para nós o domingo), cuidar do tempo em que o Eterno estaria como que “invadindo” nossa vida, nosso ser e seria um dia de celebração com ele, nosso Criador e Senhor. Um dia de adoração, reflexão, de comunhão com nossos irmãos. Daí fiquei me perguntando o significado da palavra “service” para nomear um culto em nossa nação parceira – os Estados Unidos. Até hoje ainda estou buscando compreender melhor, mas “service” traduzimos como “serviço”. Pergunta: como um culto pode ser um serviço? Será que isso não seria por que naquela nação (de meu avô materno também) a vida funcional, pragmática seria um eixo cultural bem marcante? Então quase tudo deve dar resultados, deve ser funcional, útil (utilitarismo?)? Será que disso veio o ocupacionismo e agitação dominicais? E nem falei do movimento emergente de hoje que tem transformado a vida da Igreja em entretenimento em que o culto tem se transformado em uma espécie performática de “aeróbica gospel”.
Depois disso veio a busca por compreender a expressão “vamos à Igreja”, e, então, notei que isso acabou transformando a Igreja em um lugar, um espaço aonde se vai geralmente aos domingos para se encontrar com Deus. Até um dia em que eu estava lendo o Evangelho de João e me deparei com a conversa de Jesus com a mulher samaritana que estava preocupada em saber de fato qual era o verdadeiro lugar da adoração, se em Samaria ou em Jerusalém como os judeus defendiam ao centralizar sua vida religiosa no templo. Jesus faz o deslocamento da pergunta de um espaço geográfico para o interior da pessoa ao dizer que a hora já tinha chegado em que Deus estaria procurando verdadeiros adoradores que o adorassem em espírito e em verdade (João 4.23,24). Daí, comparar com a mesma preocupação do profeta Isaías (cap. 1.10-20 e 29.13) foi um só passo para perceber que no âmbito da revelação progressiva, que considera as limitações humanas em compreender as verdades eternas, Deus estava transicionando para o clímax do que seria a adoração. E depois Paulo (Romanos 12.1) ainda fala em entregar os corpos em sacrifício vivo, e isso seria a adoração escolhida pela mente (no grego nous). E mais ainda, que Jesus e o Novo Testamento nunca conectou a compreensão do que seria Igreja com um espaço físico, mas com pessoas que, ao se converterem, seriam chamadas para fora (o sentido da palavra grega ekklesia). Jesus, portanto, não morreu e ressuscitou por edifícios, muito menos por móveis ou equipamentos eletrônicos, mas por pessoas que precisavam de restauração em suas vidas para retornar ao caminho do qual abandonaram para se tornarem nova criação (II Coríntios 5.17).
Então, na realidade, não vamos à Igreja, nós somos a Igreja, onde estivermos estaremos como Igreja, como um povo de contraste, como embaixadores do Reino, como sal, como luz, representando as Boas Novas em palavras e obras, como a vitrine de Deus, como a tradução de sua verdade e valores em nosso viver cotidiano, seja em nosso lar, vizinhança, seja no trabalho, na vida estudantil, na vida pública – somos Igreja. E quando estamos todos juntos como Igreja é para adorarmos, celebramos ao nosso Deus como resultado da vida entregue diariamente no altar ao escolhermos os valores cristãos para nossas decisões em vez de nossos interesses e paixões, assumindo o compromisso de ser um espelho das Boas Novas refletida por meio de ações que demonstrem vida transformada e transformadora transmitindo o agradável perfume de Deus (II Coríntios 2.15).
Mas quais as causas de termos transformado a igreja em um lugar, um espaço? Isso sempre me incomodou. Penso que isso vem da compreensão do Antigo Testamento desde que Deus tenha pedido para Moisés buscar um lugar para que ele morasse junto ao povo (Êx 15.17) e, do tabernáculo, surgiu o Templo em Jerusalém centralizando toda a vida do povo de Deus. No período dos profetas começa a transição e chega ao clímax em Jesus, como mencionei anteriormente. Isso é obra, como já disse, do processo de revelação progressiva. Então, me parece que não fizemos ainda a transição que o próprio Mestre apontou para a mulher samaritana.
Mas, mais ainda, esse fato da centralização do encontro com Deus em um espaço e em um dia da semana pode também ter sido reforçado pelo Iluminismo (uma filosofia e ideologia da Modernidade) em nos fazer separar a vida religiosa e privada da vida secular em que ficou desvanecida a compreensão de nosso papel centrífugo quando Jesus insistiu que “assim como o Pai me enviou, envio vocês” (Jo 20.21) e quando ele pediu ao Pai para não nos tirar do mundo (João 17.15ss) e ainda mais quando ele comissionou os discípulos, portanto a Igreja, a sair de Jerusalém e ir até os confins da terra (Atos 1.8) e isso não apenas para pregar verbalmente as Boas Novas, mas, ao serem modelo de vida, serem instrumentalizadas pelo discipulado, que é transmissão de vida, transfusão vivencial, como Paulo nos ensinou para sermos imitadores dele como ele o é de Jesus (I Coríntios 11.1). E me parece que discipulado acabou ficando mesmo como um tipo de estrutura, evento, estudo bíblico ou algo parecido. Novamente o pragmatismo de nossos precursores entrou em ação, pois discipulado é estilo de vida e não estrutura ou programa e ocupacionismo eclesiástico.
Assim, todos, indistintamente, somos chamados para sermos a vitrine de Deus no mundo em uma razão 24/7/365, isto é, 24 horas, sete dias por semana, 365 dias do ano. Tempo integral é o que Jesus indicou no chamado de tomar a sua cruz e segui-lo a cada dia (Lucas 9.23).
E aqui entra a vida também de abnegação e serviço por meio dos dons de serviço e será que logo no início da fé estamos ensinando isso ao novo convertido? Fui descobrir meus dons muito depois já na juventude avançada. Assim, em vez de alguns como profissionais da religião, todos somos chamados a encarnar o viver comprometido com nosso Criador e Redentor, onde estivermos, seja o que estivermos fazendo. Então não existe sagrado e profano, sagrado e secular, toda nossa vida é uma só, profissionalmente, pessoalmente. Todos os dias são sagrados e tudo está aos pés do Mestre. Então, em vez de um dia da semana apenas, temos os outros seis dias para vivermos intensamente como cristãos em um mundo sem Deus e sem coração, secularizado e corrompido, que precisa ver as Boas Novas se realizando em nossa vida pessoal e vida pública.
Será que perdemos o sentido de nossa existência, de nossa missão, como aquele time de futebol deixou de pensar que futebol é bola na rede, esse é o foco da missão de um time?
No próximo artigo vamos aprofundar mais o tema e ver o time de Deus cumprindo a missão para o qual foi chamado.
Por Lourenço Stelio Rega – Extraído da CBB.













