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O futuro da igreja brasileira com o envelhecimento da população

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Nos últimos anos, a população brasileira tem passado por um processo de envelhecimento. O fenômeno é constatado pelo próprio Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em seus mais recentes censos demográficos. Segundo os levantamentos, de 2000 a 2023, a proporção de idosos — pessoas com 60 anos ou mais — na população brasileira quase duplicou, subindo de 8,7% para 15,6%. Em números absolutos, o total de idosos passou de 15,2 milhões para 33 milhões, nesse período.

A projeção do instituto é que, em 2070, cerca de 37,8% dos habitantes do país serão idosos, o que corresponderá a 75,3 milhões de pessoas com 60 anos ou mais de idade. Isso significa dizer que daqui a 45 anos, mais de 1 em cada 3 brasileiros será idoso.

Outro indicador que ilustra a mudança no padrão etário do país é a idade média da população, que era de 28,3 anos em 2000 e subiu para 35,5 anos em 2023, segundo o IBGE. Para 2070, a idade média projetada da população brasileira é 48,4 anos.

Já a Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta que o número de pessoas com idade superior a 60 anos chegará a 2 bilhões de pessoas até 2050 — o que representará cerca de um quinto da população mundial. Dados do Ministério da Saúde indicam que, em 2016, o Brasil tinha a quinta maior população idosa do mundo, e, em 2030, o número de idosos ultrapassará o total de crianças entre 0 e 14 anos.

Como o envelhecimento da população impacta nas igrejas?

Diante desse cenário, algumas questões veem à tona, inclusive relacionadas ao futuro da igreja e da pregação do Evangelho. Para o pastor-presidente da Primeira Igreja Batista (PIB) de São Paulo, Paulo Eduardo Gomes Vieira, uma das preocupações que as igrejas precisam ter hoje é saber adaptar sua linguagem a esse público, cada vez mais crescente.

“Durante alguns anos, a igreja viveu diante do desafio de falar a linguagem das novas gerações. E muitas delas conseguiram fazer isso muito bem, como é o caso da Bola de Neve, Igreja Lagoinha, entre outras, que falam muito bem com essas novas gerações. Só que agora surge essa nova demanda, diante do envelhecimento da população, da inversão da pirâmide populacional. As igrejas então precisam se preocupar agora em fazer o movimento na direção contrária e conseguir falar a linguagem de quem está se tornando ou se tornará, em breve, um ancião”, destaca.

Paulo Eduardo faz uma ressalva, de que as pessoas da terceira idade de amanhã terão uma cultura e linguagem bem diferentes desse público dos dias de hoje e os de antigamente. “Essa é uma demanda que as igrejas têm: como serão esses futuros anciãos e qual será a linguagem deles? Certamente será diferente da dos anciãos de ontem, que foram criados sob outro padrão, dentro de uma formalidade, acostumados com hinos de louvor, entre outras questões. Durante décadas eles aprenderam assim e gostam disso. Mas os anciãos daqui para frente serão diferentes e as igrejas têm que estar atentas a isso”.

Ele aponta como deve ser o perfil desse novo público 60+: “O novo ancião não será institucional, mas funcional. Ou seja, não se apegará a uma instituição, mas ao conteúdo que ela oferece, aquilo que dá resultado, especialmente em sua vida espiritual. Vai buscar uma igreja em que ele é alimentado pela Palavra, onde ele possa servir com a família e onde seus netos poderão ter uma correta instrução bíblica”.

O pastor-presidente da PIB de São Paulo citou uma frase do teólogo reformado holandês Gilbertus Voet (1589-1676): “igreja reformada, sempre se reformando”. Para ele, essa frase resume o que deve ser a máxima das igrejas.

“Não existimos, como igreja, para conservar um formato ou uma tradição. Isso está longe de ser a nossa missão, que deve ser compartilhar a Mensagem de Cristo, sermos o sal da terra, a luz do mundo. Por isso, a igreja precisa sempre estar se avaliando e se formatando. Pensando: ‘e agora, como nós nos comunicaremos com os que estão envelhecendo?”.

Importância dos idosos nas igrejas

Sobre o papel dos idosos na igreja de hoje, Paulo Eduardo destaca que, além de serem muito ativos e requisitados hoje no mercado de trabalho, essas pessoas servem como referência em termos de conhecimento.

“O paradigma do ancião inativo está sendo quebrado. Esse público está sendo hoje muito valorizado, é uma mão de obra muito solicitada atualmente no mercado de trabalho. E eles podem produzir muito para as igrejas, pois são pessoas de referência, são produtivos e podem fazer muito ainda. As igrejas precisam saber onde encaixá-los”, ressaltou.

Já Robert Liang Koo, que foi pastor por mais de 40 anos e hoje é membro do Movimento Cristão 60+, em São Paulo, reforça a necessidade que as igrejas têm de valorizar mais o cidadão da terceira idade, como são valorizados, por exemplo, os mais jovens.

“A igreja precisa explorar a intergeracionalidade, ajudando tanto o jovem como o idoso. É importante oferecer às pessoas de 60+ um cuidado espiritual, além de físico, emocional e social. As necessidades dos idosos são diferentes das de outras faixas etárias. Idosos têm, por exemplo, dificuldade com acessibilidade, não é muito tolerante ao som alto, não aguenta ficar muito tempo de pé, entre outras questões”.

Para ele, é fundamental que a igreja estimule nos idosos o que ele chama de “segunda carreira”, que é o trabalho evangelístico. “Normalmente temos nossa primeira carreira, que é para nossa sobrevivência e que, por mais que não gostemos, é nosso ganha-pão. Mas o idoso geralmente já está em uma outra fase, já deixou de trabalhar e muitos já estão com a vida bem encaminhada. Nesse contexto, é importante que ele busque uma segunda carreira, para servir o Reino de Deus dentro de seus dons e aptidões”, afirma.

“O idoso não é como uma peça, que com o tempo perde o uso e acaba ficando encostada. Em Salmos 92:14, a Bíblia diz que devemos dar frutos na velhice, até o fim de nossas vidas”, completa.

Por Rodrigo Araujo – Extraído da Revista Comunhão.

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