
A cena que antes se limitava à leitura de comentários bíblicos em livros grossos agora inclui prompts e plataformas digitais. Em pleno 2025, pastores como Jorge Miguel Rampogna, da Igreja Adventista do Sétimo Dia, contam com a inteligência artificial (IA) como ferramenta auxiliar na missão de compartilhar a Palavra de Deus. Ele prepara mais de 50 sermões por ano e viu na tecnologia um apoio estratégico para ampliar o alcance da mensagem cristã.
A Igreja Adventista foi além: criou sua própria IA, treinada exclusivamente com conteúdos cristãos e doutrinas adventistas. O projeto ainda incluiu um Código de Ética para limitar o uso da ferramenta. A proposta é clara: responder perguntas bíblicas, sugerir esboços de sermões e facilitar a busca em documentos e manuais oficiais da denominação.
Mesmo com a IA ajudando a organizar ideias e revisar textos, Rampogna mantém a tradição, pois começa seus sermões com leitura da Bíblia, anotações à mão e reflexão pessoal.
Só depois disso entra com os comandos para a IA complementar o trabalho com referências adicionais e sugestões de estrutura. A tecnologia, nesse caso, funciona como uma parceira da pesquisa, sem eliminar o aspecto espiritual do preparo da pregação.
A experiência de Rampogna tem inspirado outros líderes religiosos. Para o pastor e jornalista Laércio Castro, da Igreja Batista da Vila Nova, no Maranhão, a IA pode ser uma aliada poderosa no estudo teológico.
“Um agente de IA bem treinado consegue acessar rapidamente uma imensa variedade de comentários bíblicos, artigos teológicos e sermões já publicados, agrupando informação relevante e ajudando a montar um discurso mais coerente e preciso”, afirma.
Ele acredita que, usada com discernimento e supervisão, a tecnologia não anula a ação divina: “A inspiração divina extrapola qualquer conhecimento humano armazenado em livros ou arquivos digitais”.
É preciso ter prudência
Nem todos compartilham desse entusiasmo. O pastor Luiz Sueth, da Igreja Casa da Bênção em Éden, no Rio de Janeiro, faz um alerta: “A IA substituindo a palavra inspirada, fruto da leitura bíblica e oração, é um perigo para a Igreja. Se ficarmos limitados a ela, perdemos a oportunidade de receber uma revelação nova”.
Para ele, confiar exclusivamente na IA é correr o risco de ser moldado por quem a programa. “Deus é Deus de coisas novas, eo pior: a Igreja corre o risco de ser doutrinada por quem estiver por detrás da IA. Toda IA tem uma inteligência humana por trás”.
Até o Vaticano se pronunciou sobre o tema. Em documento publicado no início deste ano, a Santa Sé alertou para os riscos da “idolatria tecnológica”. A tecnologia, segundo o texto, deve servir ao ser humano e não o contrário.
“Não é a IA que será divinizada e adorada, mas sim o ser humano, que, dessa forma, torna-se escravo de sua própria criação”, pontua o documento. Para a Igreja Católica, a IA pode ser útil, mas jamais deve substituir a inteligência espiritual ou o discernimento moral, características inatas do ser humano.
Além da preparação de sermões, a inteligência artificial também tem transformado a comunicação visual das igrejas. A Congregação Copiosa Redenção, conhecida pelas “freiras do beatbox”, tem utilizado IA para criar imagens de santos sem registro histórico, como Santa Mônica e São Matias.
O debate está longe de terminar. O uso da inteligência artificial em ambientes religiosos revela tanto as novas possibilidades técnicas quanto as tensões entre tradição, revelação e inovação. Enquanto alguns veem a IA como uma aliada para alcançar mais pessoas com a Palavra, outros levantam o alerta: o discernimento espiritual continua sendo insubstituível. Afinal, como lembra Laércio Castro, a unção e a vigilância continuam sendo essenciais, mesmo em tempos de algoritmos.
Por Flávia Fernandes – Extraído da Revista Comunhão















