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Superando decepções e fortalecendo a fé apesar das falhas da Igreja

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Nos últimos meses, tenho enfrentado uma profunda desilusão em relação à igreja, especialmente no que diz respeito aos seus líderes. Em minha própria congregação, um dos pastores tomou decisões erradas e foi afastado administrativamente. Após aconselhamento, ele se reconciliou com a igreja e voltou ao púlpito. Porém, de forma inesperada, ele renunciou ao cargo, abalando toda a comunidade.

Outro pastor da mesma igreja foi citado em um processo judicial envolvendo um ex-membro acusado de má conduta sexual com um jovem da congregação. Logo depois, veio a devastadora confissão do escritor Philip Yancey, que manteve um relacionamento extraconjugal por oito anos com uma mulher casada. Eu admirava Yancey, lia seus livros e encontrava muita sabedoria e ensinamentos para minha caminhada cristã. Fiquei profundamente entristecido ao saber da notícia.

Esses três episódios de falhas espirituais aconteceram em menos de um ano. Minha fé foi abalada. Embora eu seja cristão há mais de 30 anos e tenha servido em várias funções ministeriais, houve momentos em que me perguntei: “Vale a pena? É isso que o cristianismo realmente representa? Por que ainda frequento a igreja se nossos líderes não conseguem caminhar com integridade?”

Sei que não estou sozinho. Muitas pessoas testemunham o colapso moral em suas igrejas e ficam desiludidas. Algumas até cogitam abandonar a igreja ou, pior, a própria fé.

Compreendo essa tentação. Mas, sinceramente, deixar uma igreja — a não ser que haja erro teológico grave ou abuso espiritual generalizado — ou abandonar a fé parece o caminho mais fácil. A escolha mais difícil e que honra a Cristo é permanecer fiel e perseverar. Jesus nos advertiu que nossa caminhada de fé seria marcada por provações e tentações (João 16:33). Não devemos ser ingênuos em esperar que a igreja visível — composta por homens e mulheres falíveis — seja um mar de tranquilidade. Ela também tem seus espinhos e dificuldades.

Como perseverar na fé apesar das falhas da igreja

O que fazer quando a vontade de desistir é esmagadora? Como cultivar uma fé que resiste? Como permanecer engajado com a igreja e seu povo imperfeito, mantendo firme a confiança em Deus?

Reconhecer nossa dor e desilusão é um ato de honestidade, um derramar de coração como uma criança ferida diante do Pai amoroso. Deus entende nosso sofrimento, dúvidas e tristeza, e nos convida a nos descarregarmos para que Ele possa iniciar o processo de cura (Salmo 31:9). “Quando lidamos com a desilusão em relação aos outros e a nós mesmos, [Deus] nos dá espaço para nos abalar e curar em Sua presença”, escreve Aimee Joseph.

“É importante desviar o foco das pessoas envolvidas e da igreja em si para identificar a raiz da sua dor, confusão e desilusão. Identifique honestamente o que está sentindo”, orienta o site GotQuestions.com. “Descubra a causa verdadeira do seu sofrimento — não o que alguém disse ou fez, mas o que realmente está causando sua dor. Quando você identifica a raiz do seu sofrimento, Deus oferece um bálsamo de sabedoria, compaixão e amor para curar suas feridas. Se clamar por Ele, seu foco muda para Deus e se afasta das ações das pessoas.”

Como Davi, um homem familiarizado com o sofrimento, que clamava a Deus em angústia. Suas orações, como no Salmo 102:1-2, são um modelo para nós: “Oração do aflito, quando está desgastado e derrama sua lamentação diante do Senhor. Ouve, Senhor, a minha oração; atenta para o meu clamor. Não escondas o teu rosto de mim na minha angústia; inclina para mim os teus ouvidos; quando clamar, responde-me depressa.”

Lembre-se de que Deus está perto dos quebrantados de coração, como Davi nos lembra no Salmo 34:18.

É fácil julgar a situação e as pessoas envolvidas. Eu mesmo pensei assim no início: “Eles deveriam saber melhor. São pastores, afinal!” Mas são humanos, salvos pela mesma graça que me salvou. Também são vulneráveis às tentações e fraquezas da carne (Tiago 1:14).

Satanás conhece essa vulnerabilidade e usa nossa carne contra nós. Ele especialmente tenta os líderes espirituais, assim como tentou Jesus, oferecendo dinheiro, poder, autoridade e prazer sexual. Quando ele consegue, os pecados podem passar despercebidos por meses, semanas ou, no caso de Yancey, anos.

Quando líderes da igreja — ou qualquer cristão — deixam de vigiar e não dependem diariamente do Espírito Santo, tornam-se vulneráveis ao pecado. É exatamente aí que Satanás quer colocar os filhos de Deus: caídos, humilhados e desonrados.

No entanto, as palavras de Jesus em Mateus 16:18 trazem grande conforto: “Eu edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” Satanás pode ter suas vitórias momentâneas, mas Jesus terá a palavra final.

Um versículo que me sustentou nesses últimos meses é o Salmo 118:8: “É melhor buscar refúgio em Jesus do que confiar no homem.” Embora a igreja deva ser um lugar de amor, apoio e ausência de julgamentos, às vezes ela falha conosco. Também está aquém da glória de Deus. Mas não estamos sem esperança. Jesus é nosso porto seguro, nossa âncora firme.

Aimee Joseph escreve: “A desilusão nos lembra que existe apenas um relacionamento que nunca falhará. Reconstruir relacionamentos exige que coloquemos nossa confiança em Deus, não no homem.”

Lembre-se de que Jesus é “nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia” (Salmo 46:1). E isso vale para qualquer tipo de problema.

Ao longo do último ano, dediquei tempo para me reorientar e lembrar as verdades bíblicas sobre a igreja — o que Deus planejou:

O perdão é um ato de obediência, não condicionado a emoções (Mateus 6:15). Mesmo quando não sentimos vontade de perdoar a igreja ou a pessoa que nos ofendeu, é um passo necessário — quanto antes, melhor, para não cairmos em pecado (Gálatas 6:1b). Perdoar não significa necessariamente reatar com o ofensor ou permanecer naquela igreja, mas é um mandamento bíblico. Através do perdão, experimentamos paz, unidade no Corpo de Cristo e crescimento espiritual contínuo.

Encontro grande conforto na decisão de Janet Yancey em perdoar seu marido.

Ela escreveu: “Eu, Janet Yancey, falo a partir de um lugar de trauma e devastação que só quem viveu a traição pode entender. Ainda assim, fiz um voto sagrado e vinculativo de casamento há 55 anos e meio, e não quebrarei essa promessa. Aceito e entendo que Deus, por meio de Jesus, pagou e perdoou os pecados do mundo, inclusive os de Philip. Que Deus me conceda a graça de perdoar também, apesar do meu trauma insondável. Por favor, orem por nós.”

Ela reconhece a dor e a devastação, reafirma seu compromisso com os votos matrimoniais e suplica a Deus por graça para perdoar. Será um processo longo, provavelmente envolvendo aconselhamento profissional e espiritual, mas não tenho dúvidas de que Janet conseguirá estender graça ao marido que errou.

E nós também devemos estender graça àqueles que nos ofenderam.

Mais uma vez, Janet mostra o verdadeiro significado da fidelidade: “Fiz um voto sagrado e vinculativo de casamento… e não quebrarei essa promessa.” Seu compromisso é, acima de tudo, com Deus, diante de quem prometeu “até que a morte nos separe”. O caminho será difícil, e ela pode sentir a tentação do divórcio — que biblicamente ela tem o direito de escolher. Ainda assim, ela declara que honrará seu voto.

Podemos aprender muito com Janet. A chave para não desistir, nem da igreja nem da fé, está em honrar nosso compromisso com o Deus bom e gracioso que nos salvou e nos acolheu em Seu Reino. A igreja — com todas as suas imperfeições — é um presente de Deus para seus filhos, destinada à comunhão, unidade, crescimento espiritual, adoração, experiência da presença divina e celebração dos sacramentos do batismo e da ceia.

Sim, a tentação de se afastar da igreja e viver em isolamento espiritual pode ser forte, mas resista. Não dê espaço para Satanás. Permaneça fiel ao compromisso de seguir Jesus e continue reunindo-se com seus irmãos e irmãs em Cristo, “não deixando de congregar-nos, como é costume de alguns, mas animando-nos uns aos outros, e tanto mais quanto vedes que se vai aproximando aquele dia” (Hebreus 10:25). 

Fonte: Crosswalk – Adaptado pela Revista Cristianismo

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