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Que Culto é esse?

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Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. Não há linguagem nem fala onde não se ouça a sua voz. (Salmos 19:1-3)

Estamos diante de um dos textos mais belos de toda a literatura mundial. C. S. Lewis escreveu que o Salmo 19 é o maior poema no Saltério e uma das maiores composições líricas do mundo. Neste texto, vemos a exaltação daquilo que podemos chamar de a força da revelação natural de Deus. Trata-se do livro da criação, onde encontram os algo acerca de Deus que, embora não seja eficaz para salvar o homem, é suficiente para condená-lo.

Esse salmo deve ser lido em conjunto com Romanos 1-2, onde encontram os o seguinte fluxo de pensa­ mento de acordo com Millard Ericson: “Aqui, ao que parece, o argumento é que todos, gentios e judeus, estão igualmente condenados: os judeus porque não fazem o que saber ser exigido pela lei; os gentios, porque, mesmo não tendo a lei, também sabem o suficiente para torná-los responsáveis por seus atos diante de Deus, mas desobedecem”

Logo, ainda na linha de Ericson, quando falam os de revelação geral, estamos afirmando que “Deus nos deu uma revelação objetiva, válida e racional acerca de si mesmo por meio da natureza, da história e da personalidade humana. Ela é acessível a todas as pessoas que queiram observá-la”.

Deus se propõe a ser conhecido por meio da criação. E isso ocorre a fim de testem unhar que, por conta dessa “amostra graciosa”, o homem não pode de modo algum julgar-se alheio diante de Deus. A natureza é como um poderoso sermão que reverbera na história e personalidade dos homens, de tal modo que, ao olharem para cima, não podem negar que Deus existe, embora alguns o façam por “dureza de coração”.

Torna-se impossível não considerar Herman Bavinck aqui: “O conhecimento que Deus nos concede de si mesmo na natureza e na Escritura é limitado, finito e fragmentado, mas, ainda assim, é verdadeiro e puro. Deus é como ele se revelou em sua Palavra, e especialmente em e por meio de Cristo; e somente ele é exatamente como nossos corações precisam.”

Claro que, por meio da natureza (livro da criação) e da Bíblia (livro inspirado) não podemos ter de Deus o conhecimento plenificado que só podemos ter em Jesus (livro encarnado). Mas o meu ponto neste artigo é: pela natureza criada por Deus podemos ter um vislumbre do modo como nós de­ vemos adorar a Deus em nosso culto público e privado.

Um erudito de língua grega aponta o fato de uma das palavras gregas traduzidas por “homem” ser uma combinação de palavras significando literalmente “aquele que olha para cima”, ou ainda “aquele que olha para seu criador”.

A impressão que tenho é que o Salmo 19 trabalha com contrastes de “céus” e “firmamento”, com “dia” e “noite”, para fazer jus a esse argumento. Na natureza criada, temos uma revelação de Deus que aponta para a necessidade que o homem tem de olhar para cima, para enxergar o seu criador.

Mattew Henry vai nessa direção ao dizer que: “No livro das criaturas de Deus, podemos asseverar que tudo o que vemos são obras das mãos de Deus, ‘o trabalho dos seus dedos’, (Salmo 8.3), e assim manifestam a sua glória”.

Nesses termos, o universo físico é uma pregação. Tudo no cosmos aponta e proclama os atributos de Deus. Os astros celestes se comunicam entre si: “um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite” (NAA). O universo em seu silêncio, prega que existe um Deus, e este não é imperceptível, nem sutil em sua apresentação aos homens.

O salmista (Salmo 19) começa sua poesia falando de que os céus falam à terra. E cabe ao homem olhar para cima, para enxergar a Deus. Há uma nota de glória na criação que aponta para o seu criador. Se há criação bela, há um criador belo. Não adoramos a criação, mas temos o compromisso de adorar o criador. E, por mais que tentem os, o universo jamais será descortinado por inteiro. Teremos de lidar com mistérios que jamais serão revelados. A criação é indescritível, mas aponta para um criador que se relaciona com o homem.

Temos de lembrar de Agostinho que disse: “Pouco te ama aquele que não goza de tuas dádivas que nos deste para expandir nossa mente, alargar nosso coração, enriquecer nossa alma e aumentar nossa força, a fim de que possamos amar-te plena e suprema­ mente e cada vez mais para todo o sempre”.

Por isso, denunciamos que o homem não está em fuga de um deus, mas do Deus da Bíblia. De tal modo que, quando a igreja se reúne para cultuar a Deus, precisa estar convicta de que não apenas quanto a forma, mas sobretudo em relação ao conteúdo, sua adoração precisa apontar para o verdadeiro Deus, que é revelado nos livros da criação e na Bíblia. A pergunta que não quer calar é: o culto que você lidera em sua Igreja aponta para Deus e para a sua criação? Muitos cultos em nossa volta estão cheios de elementos humanos de auto ajuda. Neles, quem está no palco, não é Deus, mas sim, os homens.

Nesse sentido, todo culto a Deus deve tê-lo com o principal. Ele está no palco do nosso coração, antes de estar no centro do nosso culto. Na esfera privada, as nossas orações são feitas ao Pai que nos vê em secreto (Mateus 6.6). E na adoração pública, temos uma solene convocação para adorá-lo comunitariamente, desfrutando de sua criação, que “proclama a glória de Deus, e cujo firmamento anuncia as obras de suas mãos”, (Salmo 19.1).

Mas o que vemos em nossos dias, em alguns contextos são cultos obscuros. Palcos pouco iluminados. Paredes pretas. Louvores humanistas. Mensagens de auto ajuda Muita motivação pessoal e pouca inspiração divina. Em contrapartida, tem os de apresentarmos diante de Deus um culto que evoque as palavras do Senhor “até aos confins do mundo” (Salmo 19.4).

O pastor e autor John Piper disse uma vez que a razão pela qual os clubes de striptease tampam suas janelas não é principalmente para impedir os transeuntes de espreitarem sem pagar. Em vez disso é para impedir que os clientes pagantes olhem para fora e veja o céu. Os proprietários sabem que se os clientes virem os céus serão lembrados de que um vasto céu cheio de estrelas ou nuvens paira sobre eles e silenciosamente refutam a loucura de atribuir valor a um pseudoprazer passageiro.

Pense comigo: os homens e mulheres vão às boates para não olharem os céus. Por isso, as luzes apagadas, os fachos de luz que escondem os rostos e as fumaças que impedem os olhos de estarem atentos ao que está acontecendo em volta.

Vamos aos cultos de nossas Igrejas para sermos vistos e vermos os demais adoradores. Assim como , só iremos ao céu em caravana, também queremos adorar a Deus como uma só família, a de Deus. E em nossos cultos, temos de ter o nosso olhar posto lá fora, nos céus, onde Deus habita e logo depois, para nós mesmos, em contrição e reverência.

Reflitamos na canção de João Alexandre: “Brasil, olha para cima! Existe uma chance de ser novamente feliz Brasil, há uma esperança! Volta teus olhos para Deus, Justo Juiz”.

Fato é que, o pastor que não conduz a sua Igreja a contemplar a criação de Deus manifestando a glória de Deus, não presta um culto onde a presença dEle é levada a sério. Igreja não é boate. Não precisamos de me­ nos luz. Ao contrário, precisamos de mais luz!

Pr. Ezequias Amancio Marins – Igreja Batista Central em Japuiba, Angra dos Reis/RJ

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