
Comunicação é tão natural à vida humana que, muitas vezes, a consideramos um recurso automático. No entanto, sua complexidade se evidencia quando lidamos com diferentes formas de expressão, como o Braille ou a linguagem de sinais. Vivemos em tempos de intensa conectividade, especialmente nas redes sociais. Com um simples toque, postamos, curtimos, comentamos, compartilhamos. As notícias nos jornais escritos já chegam atrasadas – tudo se propaga em tempo real, seja verdade ou não.
Os benefícios das mídias são inegáveis. Somam-se agora os avanços da inteligência artificial, cujos limites ainda desconhecemos. Estamos todos imersos nessa realidade – inclusive para quem segue Cristo. Por isso, importa perguntar: qual ética temos adotado nesses ambientes digitais?
Na atualidade, as redes estão repletas de opiniões sobre tudo, muitas vezes imaturas e irresponsáveis. Vemos agressões, injúrias, difamações, ameaças, perseguições e até crimes. As redes servem, inclusive, a propósitos perversos, como chantagem, stalking (perseguição) ou disseminação de fake news. Tristes são os casos em que pessoas cristãs cometem esses mesmos erros.
Bruce J. Nicholls, missionário na Índia, identifica três fatores que moldam a interpretação das mensagens: a ideologia (valores e cosmovisão), a cultura (sistemas sociais) e o fator supracultural, que para a cristandade é a confissão de fé – a aceitação do senhorio de Cristo sobre tudo.
Pessoas que se dizem cristãs não podem ignorar o mundo em que vivem, mas devem sempre se posicionar à luz de Cristo. Não se trata de moralismo vazio, como o dos fariseus, mas de uma vida transformada que discerne os desafios do tempo a partir do Evangelho.
O Evangelho de Jesus exige renúncia e discernimento. Importa dizer “não” ao uso do poder para benefício próprio, fama ou manipulação. Como Jesus, devemos recusar os atalhos do inimigo (Lc 4:1-13). Amar a Deus com todo o ser e ao próximo como a si mesmo (Lc 10:27) é o centro do Evangelho – e deve moldar nossa conduta, inclusive nas redes.
Se Jesus é Senhor, Ele é nossa referência em tudo. Quem ama como Ele não é alguém ingênuo – é discípulo e discípula.
E, nesse seguimento, devemos nos perguntar: como Jesus reagiria às postagens de hoje? Responderia com ódio, rancor ou ironia? Certamente não. Ele nos ensina: “Amem os seus inimigos e orem pelos que perseguem vocês” (Mt 5:44). Difícil? Sem dúvida. Mas é a cruz que Ele nos convida a carregar.
John Stott lembra que a ação do Espírito Santo leva a pessoa cristã a refletir e agir conforme os valores do Reino. Zygmunt Bauman, embora ateu, reconhece em “O mal-estar da pós-modernidade” que a ética nasce da responsabilidade com o outro. Ele chama isso de “sensibilidade moral”.
Jesus não precisa de Stott ou Bauman para validar Sua verdade, mas a humildade nos convida a ouvir – e a pensar. Ser pessoa cristã nas redes é parte do nosso culto racional (Rm 12:1), é andar na luz (Jo 8:12). Que a vida de Cristo nos inspire em cada post, comentário e reação. Isso é Evangelho!
Que sejamos guiados/as por essa verdade, mesmo quando ela nos custar o carregar da Cruz. Como disse Pedro: “Mais importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5:29).
Por Marisa de Freitas Ferreira – Extraído da Revista Comunhão













