Imagine uma situação em que um médico especialista recebe uma ligação do médico chefe do hospital que lhe indaga que ele não está fazendo muitas cirurgias e ele responde que seus pacientes não estão precisando. O chefe clínico, então, o adverte que ele precisa cumprir as metas do hospital.
Se o paciente não precisa de cirurgia, não precisa e ponto final. Esse é um lado da situação. Mas, então, por outro lado, o que está por trás dessa situação? A mercadorização do paciente? A mercantilização da Medicina? O corpo deixou de ser humano virou insumo para gerar recursos financeiros e lucratividade?
Isso também se aplica à educação, especialmente universitária, que tem sido dominada por grandes conglomerados econômicos, em que os alunos viraram “peões” na “cadeia de suprimento” financeiro da organização.
E o que isso tudo a ver com a ideia de valor e valores? A palavra valor aqui tem a ver com aquilo que valorizamos, priorizamos, mas também com aquilo que tem conexão com o que pode ser chamado de respeitoso, ético, valores éticos.
Então, a partir disso você já pode deduzir que vivemos em um cenário de mundo em que as prioridades, os valores, estão sendo “desvalorizados”, trocados. Assim, o corpo humano deixa de ser humano, instrumento da história e identidade de alguém para ser “commodity”, seja em algum sistema médico, ou mesmo educacional. A pessoa deixa de ser sujeito histórico que tem um projeto de vida, pois, aqui o valor, a prioridade está na obtenção de lucro.
Outro exemplo, quando alguém pensa que tem sucesso pela quantidade de seguidores nas redes sociais ou que algo se torna verdadeiro por estar sendo divulgado amplamente (se diz que viralizou), ainda que não seja compatível com a realidade dos fatos. Me lembro que, antes das redes sociais, um enorme veículo de comunicação, para incentivar engajamento, divulgou uma determinada reportagem com a seguinte frase: “venha saber o que existe além dos fatos!” De imediato pensei: “mas existe algo além dos fatos?”. E hoje existem as “fake news” que, embora sejam “fakes” são “news” e se tornam “fatos” como estopim para a era de pós-verdade.
Falei em valor, valores e ética, então temos de lembrar que ética é um conjunto de princípios que indicam um caminho a seguir, como um GPS. Então, de certa forma, todos temos valores, todos temos uma ética, pois todos temos de decidir, e o mais importante é saber quais são as fontes de nossa ética, de nossos valores. Se partirmos do utilitarismo ou pragmatismo poderemos defender as metas cirúrgicas a serem alcançadas, ainda que atinjamos as pessoas. Ou mesmo a quantidade de seguidores e se algo que dissemos nas redes sociais “pegou” ou não “pegou”, seja verdade ou não.
Defendo um conjunto de princípios éticos que tenho chamado de “ética mínima” que nos traz uma coleção de cerca de 17 itens ou princípios que indicam um caminho de vida saudável, respeitoso, que valorizam nosso papel como indivíduos, valorizam relacionamentos e bem-estar, valorizam o ambiente e a vida como o maior bem que recebemos como sujeitos históricos.
O valor de ter valores é que em vez de eu sobreviver, vou aprender a SABERviver e deixar de ser consumidor da realidade para ser participante da construção da história com meu projeto de vida.
Pr. Lourenço Stelio Rega – Eticista e Especialista em Bioética pelo Albert Einstein Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa (Hospital Albert Einstein). Extraído da Revista Comunhão.