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Falsos profetas e discernimento espiritual

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“E, contudo, também estes, semelhantemente adormecidos, contaminam a sua carne, e rejeitam a dominação, e difamam as dignidades.” (Judas 1:8)

“E, contudo, também estes…” (Judas 1:8) é uma ponte textual que nos liga aos exemplos anteriores de juízo mencionados por Judas: o povo de Israel que pereceu no deserto, apesar de ter sido liberto (Judas 1:5), os anjos que não guardaram o seu principado e foram reservados para o juízo do grande dia (Judas 1:6) e Sodoma e Gomorra, que sofreram a pena do fogo eterno (Judas 1:7). A conexão é clara: mesmo depois de advertências tão severas, os falsos mestres persistem no erro. Eles ignoram deliberadamente tais alertas, são insubmissos, difamam autoridades e se entregam à indulgência sexual e à rebelião consciente.

Uma das coisas que mais me assusta hoje é perceber que falsos pregadores conseguem dormir sem que suas consciências os perturbem. São capazes de pregar, de forma intencional, um sermão repleto de engano no domingo à noite, sair para jantar, viver impiamente durante a semana e, ainda assim, repousar tranquilamente. A explicação que encontro nas Escrituras é que sua mente está “cauterizada” (1 Timóteo 4:2).

A tradução do termo “cauterizada” — que carrega o sentido de queimar uma ferida — transmite a ideia de insensibilidade extrema. O efeito do cautério é destruir a sensação e amortecer o sentir, como se a consciência tivesse sido endurecida, tornando-se incapaz de perceber culpa ou remorso. Todavia, o significado original aprofunda a gravidade do quadro: a imagem é de uma consciência marcada pelas cicatrizes de crimes cometidos contra o próprio conhecimento do que era certo. Essas marcas interiores provam que erraram deliberadamente, conscientes de sua culpa.

Essa figura remete à prática antiga de marcar criminosos com ferro em brasa. Eles carregavam um estigma visível; aqui, porém, trata-se de um estigma interno, gravado na consciência, que confirma a transgressão cometida.

Essa ideia se conecta a passagens como Tito 3:11, que descreve alguém que “peca, estando em si mesmo condenado”. Ou seja, tais pessoas têm plena consciência da culpa que carregam. Apesar de estarem “marcadas” e cientes de sua condição, continuam a agir com uma falsa aparência de piedade, buscando seduzir e enganar os outros.

Por causa dos “homens ímpios, que se introduziram… que convertem em dissolução a graça de nosso Deus e negam a Deus, único Dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo” (Judas 1:4), há ovelhas feridas, desapontadas e desorientadas. As reações humanas diante dos falsos mestres variam: alguns se tornam discípulos do engano, outros abandonam a vida congregacional, mas há também aqueles que, com maturidade espiritual, identificam os lobos e permanecem firmes, ou lutando para mudar o quadro ou decidindo congregar onde Cristo é honrado e a Palavra é ensinada com fidelidade.

Judas não nos chama ao abandono da igreja, mas ao discernimento dentro da igreja. Ele descreve os falsos mestres como “nuvens sem água”, “árvores murchas”, “ondas impetuosas do mar, espumando as suas próprias abominações” e homens que “apascentam-se a si mesmos, sem temor” (Judas 1:12), os quais estão destinados à “negrura das trevas… eternamente” (Judas 1:13). O chamado não é à fuga do rebanho, mas à identificação do engano, para que não sejamos moldados por ele.

Examine quem o instrui. Avalie a mensagem à luz do caráter e das Escrituras, sem se deixar conduzir por carisma ou promessas que não exaltam o senhorio de Cristo. Não se escandalize a ponto de abandonar a igreja; discirna a ponto de proteger sua alma e fortalecer a sua fidelidade a Jesus.

Cleber Montes Moreira
Pastor da Igreja Batista de Vila Antunes, Cajati (SP)
Colunista do Portal

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