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A virada do ano e o verdadeiro tesouro do coração

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“Porque onde estiver o vosso tesouro, ali estará também o vosso coração.” (Mateus 6:21)

Posso dizer que sou um saudosista. E uma das coisas das quais tenho saudade é daqueles cultos fervorosos de virada de ano, quando as igrejas, com seus templos repletos, se reuniam em louvor e gratidão, colocando diante de Deus, em oração, o ano que se iniciava. Era marcante o momento em que cantávamos com vigor e alegria: “Rompe a aurora, vai-se embora mais um ano de labor. Não temamos, prossigamos a lutar com mais ardor…”. E, já no novo ano, após o culto público, nos reuníamos no salão social para desfrutarmos de um momento especial, iniciando assim o ano com a família de Deus reunida. Aquelas reuniões não eram apenas tradição, mas expressão clara de prioridades bem definidas e de um coração que reconhecia em Deus o seu maior tesouro.

A passagem de um ano para outro costuma ser tratada pelo mundo como um momento de expectativas, excessos e ilusões de recomeço. Muitos acreditam que a simples mudança no calendário seja suficiente para produzir renovação interior, paz ou sentido para a vida. Entretanto, à luz das Escrituras, devemos compreender que não é a mudança no calendário que produz tais coisas, mas o lugar onde o coração está firmado. O próprio Senhor Jesus declarou: “Porque onde estiver o vosso tesouro, ali estará também o vosso coração” (Mateus 6:21).

Ao nos aproximarmos da virada do ano, somos inevitavelmente confrontados com nossas prioridades. A maneira como escolhemos passar esse momento é um indicativo claro de quem governa nossa vida e do que realmente valorizamos. Tesouros terrenos, por mais atraentes que pareçam, são frágeis e passageiros, pois o Senhor advertiu: “Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam” (Mateus 6:19). Quando o coração se prende ao que é temporário, ele se torna inquieto, ansioso e vulnerável, porque deposita sua segurança naquilo que o tempo inevitavelmente corrói.

Em contraste, o discípulo de Cristo é chamado a viver com os olhos voltados para a eternidade. Jesus ordena: “Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam” (Mateus 6:20). Esse ajuntar não se refere a algo abstrato, mas a uma vida marcada pela comunhão com Deus, pela fidelidade à Palavra, pelo compromisso com a santidade e pela dedicação ao Reino. Quando o coração está ajustado ao céu, todas as áreas da vida passam a ser organizadas à luz do senhorio de Cristo, pois “a nossa cidade está nos céus, donde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Filipenses 3:20), e assim vivemos como cidadãos do Reino, e não segundo os valores deste mundo.

É nesse contexto que percebemos o valor do ajuntamento do povo de Deus. Congregarmo-nos não é um costume opcional nem uma prática secundária, mas uma necessidade espiritual para o bem-estar pessoal, familiar e coletivo. O escritor aos Hebreus nos exorta a não deixarmos a congregação, antes nos estimularmos uns aos outros, especialmente à medida que o Dia se aproxima, pois é na comunhão dos santos que somos edificados mutuamente, exortados e fortalecidos na fé (Hebreus 10:24–25). Quando a igreja se reúne para cultuar na virada do ano, ela declara publicamente que Cristo é o Senhor do tempo, da história e da vida do seu povo.

Escolher estar em culto, em vez de em celebrações meramente sociais ou mundanas, não é desprezar a família nem o descanso, mas colocar tudo em seu devido lugar. Famílias que começam o ano diante de Deus ensinam, pelo exemplo, que Ele é digno do primeiro lugar. Os crentes que priorizam o culto testemunham que não vivem movidos por tradições humanas ou conveniências pessoais, mas pela convicção de que “nenhum servo pode servir dois senhores” (Lucas 16:13).

A virada do ano, portanto, não é um ritual místico, mas o modo como escolhemos passá-la pode revelar o estado do nosso coração. Essa escolha se torna um indicador claro de se Cristo ocupa o centro da nossa vida ou se foi relegado a um lugar secundário. O Senhor não aceita dividir o trono do coração; Ele exige reinar de forma absoluta. Quando o povo de Deus escolhe iniciar o novo ano reunido para cultuar, essa decisão se torna uma confissão prática de fé e uma declaração clara de que o nosso verdadeiro tesouro não está neste mundo, mas em Deus.

Que cada crente examine o próprio coração e permita que essa escolha revele um compromisso renovado com o senhorio de Cristo, com a igreja local e com uma vida orientada pela eternidade. Afinal, onde estiver o nosso tesouro, ali estará também o nosso coração.

Cleber Montes Moreira
Pastor da Igreja Batista de Vila Antunes, Cajati (SP)
Colunista do Portal

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