Convenção Batista Fluminense
Home Artigos Criança também é gente – Parte 1

Criança também é gente – Parte 1

3
Foto: Reprodução.

Neste mês da criança, é oportuno lembrar que a socieda­de medieval via a criança como um “adulto em miniatura”, segundo o historiador Philippe Ariès, ao descobrir que, nesse período, não existia o “sentimento de infância”, pois, assim que a criança ultrapassava a fase de dependência física inicial, cerca dos 7 anos, era vestida, tratada e inserida no mundo do trabalho e do convívio social como um “adulto em miniatura”, desconsiderando-se que ela era desprovida dos “equipamentos” mentais, emocionais, para que pudesse ter a concepção da vida e da realidade como de fato um adulto poderia ter.

No livro “Emílio, ou Da Educação” (1762), o filósofo Jean­ -Jacques Rousseau semeia uma revolução na compreensão do que seja a natureza de uma criança ao afirmar que a “infância tem maneiras de ver, de pensar e de sentir que lhe são próprias; nada é mais insensato do que querer substituir essas maneiras pelas nossas [de adultos].” Com isso ele de­ monstrava que tentar tratar uma criança como um “pequeno adulto”, exigindo dela a razão de um adulto era inverter a ordem natural do desenvolvimento humano.

Assim, o modo de pensar na vida infantil opera com re­ gras, hipóteses e estruturas lógicas coerentes para a etapa própria em que a criança se encontra. Por isso é que tratar a criança como um adulto em escala menor leva a erros não somente pedagógicos, mas a graves equívocos no campo da decisão e escolhas até mesmo no campo da história pessoal e que envolvam valores éticos, ao se atribuir a uma criança ou mesmo adolescente e, porque não, a um jovem em fase inicial, tentando impor a lógica do pensamento formal abs­ trato e mesmo impor decisões e escolhas que necessitam de estruturas mentais, lógicas, históricas, preditivas de re­ sultados de decisões etc. a uma mente que ainda opera por meio de esquemas sensório-motores, intuitivos ou concretos precários e ainda em formação.

Hoje, ainda mais, essa percepção tem respaldo na Neu- rociência ao indicar que a formação das redes neurais, que vai definir o futuro da compreensão sobre a vida e na for­ mulação das decisões de uma pessoa, começa bem cedo. A arquitetura cerebral humana é construída ao longo dos primeiros anos de vida em um processo dinâmico chamado de sinaptogênese exuberante seguido pelo que é conhecido como poda sináptica, em que os estímulos e experiências ambientais moldam fisicamente os circuitos neurais que fundamentam as funções cognitivas superiores, a regulação emocional e as tomadas de decisão na vida adulta.

Isso indica que as funções cerebrais não estão prontas após o nascimento de uma pessoa, mas o cérebro tem de­ senvolvimento hierárquico e sequencial, em que as redes associadas ao raciocínio complexo e às decisões na vida adulta vão depender da solidez das vias neurais primitivas estabelecidas na infância.

Associado a isso, o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, em janeiro de 2018, apresenta parecer, que, em resumo, busca demonstrar que:

• a criança é uma pessoa em desenvolvimento e que o ser humano nasce desprovido de condições autónomas para se manter, tanto física quanto psiquicamente, sendo dependen­ te, requerendo cuidados especiais, distintos em cada fase do desenvolvimento, que evoluirão ao longo das duas primeiras décadas de vida e que se dará gradativamente;

• desta forma, os bebés e as crianças são absolutamente vulneráveis.

E, então, conclui que:

• é negligente, irresponsável e alienante consentir ou induzir as crianças a fazerem escolhas prematuras, já que são desprovidas de maturidade para tal;

• é função parental apresentar referenciais para a educa­ ção psicossexual da criança, podendo se valer de orientação médica e psicológica;

• durante a adolescência ainda há parcial vulnerabilidade;

• educação sexual, direito da criança e do adolescente, é muito diferente de incentivo à indefinição sexual, o que traza eles insegurança, inadaptação e risco, com consequências para essa população vulnerável;

• é medida antiética a realização de experimentos psí­ quicos, não aprovados pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP), conforme legislação vigente, com a popu­ lação de crianças e adolescentes, visto sua vulnerabilidade.

Diante disso, não é difícil deduzir os motivos pelos quais movimentos autodenominados progressistas buscam fragilizar a família, bem como, retirar dos pais o papel em dar suporte na formação integral das crianças, para que possam, desde as fases iniciais da vida.

Assim, passam a ter acesso às crianças para lhes impor sua agenda de valores, para que possam ter modelados, desde esta fase, os caminhos primitivos de valores que impri­ mirão irresistivelmente intensa influência em suas escolhas.

É bem curioso que esse movimento tenta demolir uma abordagem como essa com o argumento que se está ten­tando impor às crianças uma “agenda/pauta de costumes”. Mas o que é uma agenda ou pauta de costumes, senão uma lista daquilo que se considera aceitável em determinado ambiente, seja ele progressista ou não?

Portanto, isso é um sofisma e falácia que, no fundo, ocultao argumento: “pais estão proibidos de impor uma agenda de costumes aos seus filhos, pois, na realidade, nós é que queremos impor a nossa agenda conforme o que achamos ser o correto!” Isso nada mais é do que um discurso de opressão e de exclusão.

Criança também é gente e a própria ciência, em suas mais variadas formas, demonstra o seu necessário desen­ volvimento que necessita ser considerado e respeitado. No próximo artigo, além de mencionar o Estatuto da Criança e do Adolescente (EGA), vamos aprofundar essa abordagem apresentando ainda como que o argumento de que os valores são culturalmente dependentes e, portanto, a ciência passaa perder sua legitimidade. Como lidar com isso?

Pr. Lourenço Stelio Rega – Eticista e Especialista em Bioética pelo Albert Einstein Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa (Hospital Albert Einstein) Extraído do OJB.

Deixe uma resposta