
Em geral a Páscoa tem sido mais centralizada na morte de nosso Messias Jesus. E até já estudei uma possibilidade de que ele tenha mesmo sido crucificado em uma quarta feira, não na sexta, como a cronologia clássica busca afirmar. Há estudos comparando os eventos daquela semana a partir dos Evangelhos, considerando a afirmação do Mestre que ficaria três dias e três noites no interior da terra (Mt 12.40) e o texto de Mateus 28.1, em que no texto grego temos a palavra sábado no plural indicando mais do que um sábado, ainda que as traduções conhecidas a tragam no singular. Vamos lembrar que antecipando a Páscoa os judeus observavam a Festa dos Pães Ázimos, em que o primeiro dia era um feriado religioso (um sábado na linguagem da época) e o último dia também (outro sábado), em seguida iniciava o dia da Páscoa, ocasião em que Jesus fôra sepultado. Inicialmente você poderia discordar, mas vale a pena investir um pouquinho de tempo nisso, pois aqui unimos as narrativas paralelas, o funcionamento dos dias e festas naquela cultura e época e a profecias de nosso Mestre – tudo isso se cruzando e demonstrando a precisão do que ele previu naquela época. Se desejar receber esse estudo é só me solicitar.
Mas, voltando ao ponto, o significado cristão da Páscoa é mais do que morte e crucificação do Messias. Aliás já ouvi mensagens, li textos, ouvi conversas, em que há a centralização do Evangelho na cruz. Já até foi criada a palavra “cruciforme” para indicar essencialmente a efetividade do Evangelho.
A crucificação discutivelmente é fundamental e importante e em nada podemos reduzir isso. Mas seria ela sozinha o centro de forma que os demais eventos em relação à Jesus seriam secundários?
Um exemplo que nos ajuda a aprofundar o tema está na discussão paulina em 1Coríntios 15.14 em que se não incluirmos a ressurreição no que podemos chamar de “evento-Jesus” (isto é, tudo o que envolveu a vida, missão e obra de Jesus) tornaremos o Evangelho sem sentido (no grego κενός, inútil, vazio).
De modo que para termos uma visão completa do Evangelho é aprender que todo o “evento-Jesus” é central e não apenas um dos seus detalhes. Assim podemos dizer que tudo em Jesus é central – seu nascimento (encarnação – Deus se tornando humano) + seu ministério (ensinos, milagres, discipulado) + sua morte + sua ressurreição + sua ascensão + sua volta.
Assim, tudo em Jesus (no evento-Jesus) está ligado com tudo nele e nada poderá ser visto como mais importante, pois tudo nele é importante e se completa de modo a nos trazer vida completa.
Veja que ao se tornar humano ele se aproxima de nossa natureza (ainda que continue Deus – Fp 2.6-8), traz seus ensinos para nos guiar por meio do discipulado, morre na cruz em nosso lugar para nos redimir da condenação de nosso estado decaído, ressuscita nos dando nova vida e nos introduzindo em uma nova humanidade (1Co 15.45ss), sobe aos céus para nos preparar lugar (Jo 14.2) e voltará para nos dar um novo tempo trazendo de volta o sentido de vida que perdemos com a rebelião no Éden (Gn 3), restaurando-nos como nova criação (κτίσις, 2Co 5.17).
Então, em vez de dizermos que a cruz é o centro, o melhor será dizer que Jesus, e sua vida completa (pelo menos os 6 eventos que citei), é o centro mais do que suficiente.
Por Lourenço Stelio Rega – Eticista e Especialista em Bioética pelo Albert Einstein Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa (Hospital Albert Einstein)













